segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Alice fora da caixa
Abriu um pedacinho do buraquinho que deixava o papelão furado. Olhou pra fora. Viu ali tudo colorido, vibrante, veloz, fresco.
Começou a rasgar mais e mais. E foi perfurando seu canto e deixando a luz entrar. Conseguiu ficar agachada. Rasgou a parte de baixo e sentiu os pés no chão gelado. Se deliciou com aquilo e, por um tempo, quis ficar ali, sentindo o sangue que corria nas veias encontrarem a pele gelada. Mas não bastava. Já tinha ouvido falar que o que ela queria ainda não tinha nome. Era mais que liberdade.
Arrancou o teto e saiu.
O sol, o vento... Tudo veio forte nela. E ela admirada. Ficou parada um tempo grande. O suficiente pra dourar a pele branca de enclausuramento. Abria e fechava os braços. Sentiu o ventinho frio passar por cada buraquinho dos poros do corpo. Sentiu cheiros. Muitos cheiros. Soltou os cabelos presos no rabo de cavalo. Abriu a boca.
Abriu a boca e gritou muito alto que não, não queria morar para sempre numa caixa!
Foi quando abriu a porta o carro e saiu sem dizer nada. Não sentia raiva. Não sentia nada de ruim. Só abriu e saiu andando.
Começou a sentir o corpo todo estalar, os músculos beliscarem sua dor de ficar fechada, estática. Espreguiçou. Como era bom espreguiçar. Alongou. Pulou. E começou a correr.
Não disse nada. Só foi. Precisava de um tempo pra curtir seu espaço. E antes não tinha mais uma coisa só sua. Então disse que precisava de asas. Pediu para que lhe desse abertura, para que passasse sozinha, curtindo cada flor que via, cada criança na rua, cada coisa colorida...
Correu como se não tivesse pra onde ir. Correu balançando os braços, chutando o ar com os pés, cantando suas músicas preferidas. Estava liberta. Agradecia por estar fora de uma caixa, por poder cair, trupicar, levantar e andar e depois correr. A vida não pararia pra passar merthiolate nos pés. Viveria com bolhas. Cada uma era um grande passo. Ou um passo em falso, não importava. Mas era andar.
Não disse que era o fim. Aliás, não disse nada. Se falava de liberdade, que todos tivessem, também, liberdade pra abrir a porta e sair também, ou que ficassem lá dentro enquanto achassem por bem assim.
E que assim fosse. Ela não tinha amarras, algemas e continuaria correndo, acompanhada, sozinha. Mas correria, pararia, sentaria num banquinho branco de uma praça e olharia para o passado de trás e pensaria no passado da frente. E, se não soubesse, por um instante, pra onde ir, iria pra qualquer lugar.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Alice depois da noite que tanto esperava
Preparou tudo. As velas, o incenso de canela e morango que ele tanto gostava, o vinho seco que planejaram uma vez, passou pano nos móveis e jogou perfume nos travesseiros e almofadas. Fez uma comidinha gostosa para antes (ou depois), comprou vestido, langirie nova, hidratou as madeixas e pintou as unhas de vermelho. Porque era de vermelho que ele gostava.
As toalhas no banheiro eram daquelas de quando se recebe visita importante em casa. Foi até na Dona Maria de Lourdes, a vidente que ficava a poucas quadras dali. Dona de Lourdes, como era conhecida, tirou a carta do amor. E olho bem no fundo do buraco dos olhos dela e não disse nada. Aquilo poderia ser bom. E poderia ser ruim.
Tomou um banho de alfazema para equilibrar as energias, ensaiou "Olá, tudo bem? Eu vou indo e você?" de frente pro espelho do quarto algumas vezes e separou os livros mais interessantes sobre filosofia para deixar à mostra na mesa de centro.
Olhou pela janela, afinal, ele podia chegar mais cedo. Pensou se tocaria direto a campainha ou se ligaria no celular dizendo que ia atrasar porque ia comprar o chocolate que ela gosta e a fila estava gigante! Ligaria? Pensou em ligar também. Para confirmar. Mas não, poderia parecer mal amada demais.
Começou a separar os discos do Bob, Caetano, Chico que ele não gostava, Ney que ele gostava quando cantava Chico. Separou Jazz, Gerald Toto, Richard Bona, Lokua Kanza, Silvia Gommes e um vinil Tropicália. Bom.
Boa música, boa comida, bom vinho, talvez um chocolate, perfumes e ela. E mais ele. Tava de bom tamanho. Casa aberta esperando. E ela esperando.
Deitou-se no chão, no tapete novo e esperou.
Tocou o telefone. Não era ele. Era do trabalho. Telefonema prolongado. Explicou que não, não poderia ir à agência, não poderia resolver nada. Explicou tudo para o estagiário desesperado pra ir embora assistir um jogo qualquer. Ele apressado e ela impaciente. Distraiu-se por um tempo. Um bom tempo. Tempo suficiente para perder três ligações dele e a campainha.
Desligou. Levantou-se calmamente do tapete e olhou pra porta. "Estava aberta", ele disse. Ela ficou extasiada. Ele trouxe chocolate, outro vinho e flores vermelhas. E ainda assistiu uns minutos do telefonema, o que disse ser "a cena mais linda de todas". Ela, semideitada num tapete claro, num vestido vermelho, com unhas vermelhas, explicando uma coisa qualquer que ele desconhecia a um outro qualquer que também não conhecia.
A noite que tanto esperava foi linda, foi gostosa, foi carinhosa. Foi diferente, um pouco. Bom o suficiente pra querer aquilo todos os dias. Queria pedi-lo em casamento!
Ele curtiu cada livro de filosofia, elogiou o perfume da casa e falou que sentia muita falta do cheirinho dela quando se deitaram. Ele era especial. Seria o homem da vida dela, talvez. Não fosse por um motivo, beirava à perfeição. Não fosse por acordar sozinha numa cama para dois. Um bilhetinho debaixo do travesseiro dizia: "ficaria assim por toda a eternidade, mas tenho que trabalhar... vamos marcar de novo? beijo, Dani".
Marcar de novo?
Depois da noite que ela tanto esperava "marcar de novo" só confirmou que o bom daquilo tudo era não ser sempre. Não se casaria com ele. Afinal, ele era perfeito demais para ser o homem de todos os dias da sua vida.
Limpou as unhas, trocou as toalhas do banheiro porque a vida, essa sim, seria por toda a eternidade. E ele... Ah, ele, ela resolveu deixar pra lá.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Alice quando explode
Quando eu me calo é porque explodo por dentro. Me desafio na miúda em silêncio. Me componho pra não explodir fora. Pra não desgarradamente suprir minha raiva do pulso dos outros, não sangrar de quem não tem suor que me cale, não tem força que me segure, não tem corrente para o meu monstro.
Quando me calo é pra não atirar pro exterior o que me leishmaniose vicera. É pra não cuspir de asco o meu bicho de sete cabeças, pra não botar fogo na palha com gasolina. É pra não te queimar, que me calo, me resguardo em dor inquieta só dentro de mim. Não tenho intenção de te ferir.
Não quero deixar marcas. Nem feridas. Nem bolhas, nem cascas. Me calo é porque explodindo por dentro trato-me da minha própria melancolia. Sozinha. E não te envolvo, não me completo. Quando me calo é que me acho, me reviro pelo avesso, me procuro, me troco, me deixo. E volto.
Quando me calo não quero desculpas, pedidos ou razão. Não quero avalizar culpa. Não quero sexo, carinho nem discussão. Quando me calo sofro com o mexe remexe que apronto dentro de mim. É de veia em veia, de liga em liga, de ponto em ponto do coração e do corpo inteiro de vermelho, que vou ligando, com cola quente de úlcera. Cola que arde, queima. Aí reparto em pedaços cada tijolo do meu estouro. E começo a me reorganizar, montando-me inteira, num processo doloroso de auto avaliação, auto conceito, auto imagem e um pouco de piedade. Vou me fazendo de novo, bonita por fora e esburacada por dentro. Cobrindo com estampas coloridas cada fundo sem nó, cada pedaço sem liame, cada um com cada qual.
Regenero, então.
Quando eu me calo é porque explodo por dentro.
Pulso dos outros. Não atiro leishmaniose que vicera, não cuspo asco nem bicho de sete cabeças... É pra não te queimar.
Porque quando me calo é porque não tenho intenção de te ferir.
domingo, 30 de agosto de 2009
Alice: porque se for pra começar tudo de novo...
Se for pra começar tudo de novo...
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Alice e coração tal-qual
é quando dói, encolhe e pinga
é quando sai vermelho enxurando tudo
é que por tédio ou por amor...
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Alice e a escuridão
Eu queria é que você ficasse comigo ontem. Que não me deixasse sozinha no negro da noite sem luz. Queria mesmo que você se importasse com a minha solidão, meu medo do escuro e me ajudasse a cuidar de cada canto da minha casa vazia.
Queria que você trouxesse mais velas, talvez um vinho. Ontem eu queria ficar deitada na rede com você vendo as estrelas ou assistindo um filme patético qualquer, à luz de velas, muitas velas.
Queria que você me cuidasse mais e me atendesse prontamente e que nenhum jogo de futebol fosse um "daqui a pouco te ligo".
Queria que você me ajudasse a cuidar da minha gata que estava aflita, achasse meus incensos e me abraçasse forte com a força que tem que me encaixa sempre tão bem.
Ontem eu queria que você fosse a luz que me faltou, o quente do meu cobertor e o chamego de "está tudo bem, meu amor".
Ontem queria dançar pra você. E te deixar admirando o reflexo do meu cabelo sob a luz das velas vermelhas que coloquei na sala. E dançaria de vestido, como você gosta, bem devagar só pra você admirar. Rodopiaria na ponta dos pés e pararia bem de frente pra você e...
Ontem eu queria que você fosse meu fogo, minha cama, meu cheiro, minha falta. E ficaríamos nós três, você, eu e a gata Penélope nos aconchegando até que o sol raiasse.
Mas você não foi. Não entendeu que meu "não precisa" era uma súplica. Que minha voz truncada era um querer demais te ver como surpresa pelo olho mágico da porta. Não percebeu que te queria inteiro e completo comigo. Não percebeu que tinha que me adivinhar.
Mas isso é só mais uma pirraça minha. Só mais uma exigência egoísta, só uma de me achar um sol e que você só pode ter olhos cegos pra ele. Puro ego, birra e solidão.
Depois que descobri que meu "não" foi mesmo um "não" pra você, que nada iria acontecer... Penélope e eu nos enroscamos debaixo do cobertor, sopramos as velas e dormimos. Afagadas pelas mãos macias da minha sombra que me acompanha mesmo na escuridão total e absoluta dos meus sonos.
Não se preocupe com culpa. Com ela lido eu. Ela vem sempre me cobrar pelos meus caprichos. Sei bem como é. Agora que não pode mais fazer nada, deixa que com a culpa e o castigo eu me viro.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Alice e seu coração involuntário
Já falou muita besteira sobre isso de onde se concentram as coisas, lóbulo direito, mente, alma, cabeça... espírito, físico, pele, cheiro. Já falou demais. Já foi de arrogante a língua de dizer sem pensar e pensar e ainda assim dizer, gritar, mentir...
Para muito da sua estranheza, então, ela começava a sentir alguma coisa bem diferente. Lá naquele cantinho, no órgão muscular oco que se localiza no meio do peito e ligeiramente deslocado para a esquerda, que chamam carinhosamente de coração.
Estranho não era sentir algo ali. Isso ela já tinha visto sangrar. O estranho mesmo era a ambigüidade do que se passava por ali, onde pulsam pensamentos, às vezes sentimentos. O coração dela estava pensando de maneiras diferentes. Sem a permissão dela, ele desatinou. E deu-se a pensar prum lado e pro outro. Num balangobango de vai e volta, ora vai, ora volta. Ora fica, ora esfria. Ficava quente e vermelho (a), suava frio, sentia pressa, vergonha. Ou NADA. O NADA passaria despercebido não fossem as oscilações.
Era como um bicho despertado depois de longas décadas de hibernação. Olhava para todos os lados, direita, esquerda, diagonal, cima, baixo, metade pra lá, aqui, umbigo. Aí, no umbigo, era onde desacelerava a palavra e parava. Calmaria. Hum... Tranqüilo...
Logo depois já desandava e vinha um caso, “não caso”, amo, chato!, sonho, sexo, música, memória, novidade, descontrole, perna bamba, “caso”, “de jeito nenhum”, hoje sim, amanhã não.
Que coisa essa de não se definir! Haveria de ser absolutamente um milhão de vezes mais fácil de administrar se uma coisa só fosse. Se não fosse tão pluripersonal, se não se dividisse em escalas, dependendo do degrau da escada, saltitando entre cada pedacinho do que se tem de liga. Liga do coração ao umbigo.
O coração dela estava indócil, feroz, malicioso e queria tudo ora no mesmo cantinho do buraco do lado da parede, ora cada qual em seu lugar que não se sabe onde. E, como de costume, às vezes queria somente NADA.
Coração bobo!
Sai aí lascando os outros, deixando seu xis colorido de lápis vermelho, marcando zorro nos outros, pulando de galho, voltando à estaca, trocando de cena, fazendo-se de tolo. Pacóvia de si mesmo, destes movimentos irregulares, desta descentralização de ordens e subordinados.
Porque o coração, sabe-se, assim como a sua língua, é uma das coisas do seu corpo que se mexe sozinha, sem nenhum respeito ao que ela lhe dizia.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Alice e o telefone que não toca
"E que telefone que não toca nunca?!"
Troca de assunto pra não dar nó na garganta, balança a cabeça pra refrescar pensamento. Acende um cigarro. Pede outra cerveja.
"Chorei tanto, mas tanto..."
Foda. Pho-da.
Coração doloridinho... "Somos sozinhos nesta multidão..." - escutava. Escutava em silêncio com seu cigarro pregueado nas mãos.
E os carrapatos? "Foi um final de semana maravlhoso! E ontem... Ontem...”
Lágrimas. Olhos cheios de amor, saudade, paixão.
"Musiquinha bacana, não?" e batucava os dedos na mesa. O que fazer, se não. com as mãos?
Outro cigarro.
E ela que sempre teve o costume de dizer que fugia do amor. Do amor específico, o grande, aquele que tanto pode fazer-se pular nas cândidas e brandas nuvens de bumbum como fazer doer batimento n’alma. E dor na alma é muito forte. É um amor MUITO. De dor e de encantamento. Foge da dor, mas dá de cara com o encanto. Este, talvez, o motivo do soluço forte de agora: o amor de que foge sempre. Foge tanto que sente antes a dor com muito medo do encanto doer depois. Dói antes de deixar doer, o amor.
E o amor... É como esse telefone estúpido! Esse telefone que não toca NUNCA, agora.
E aí, fazer o quê, quando essa dor doida dói tantão assim? Chora. Pranto, lamento, amiga, colo, cigarro, batuque na mesa, outra cerveja, trocar de assunto pra não deixar o nó girar dentro da garganta. Porque ligar e desligar o telefone o tempo todo e não ter nenhuma surpresa... Ah, isso é um desbunde!
"O telefone não toca mesmo, né?"
Ele não tocou.
E, “ai!”
É assim mesmo. Porque de todas, a dor na alma é a mais violenta. Faz congado de fincadas dentro do corpo inteiro. “Congado...” – matuta in memory – mesmo sem saber se seria morte, dava adeus ao pulso forte como forte também seu choro descontrolado de agora.
E chorar também é dor. Dor até boa. É uma banda de funk saindo lá do meio dos tímpanos, deixando sujeira e a casa vazia. Em noite de festa. Mas fechou a porta e não dançaria ali mais nenhuma flor e ninguém mais tocaria tambor!




























































