Designer by Luiz Cotta

Alice e sua Sombra

Alice não é Ágata.
Alice não é Renata, Débora, Aline, Ana e muito menos Carolina.
Alice não é bailarina, professora de forró, santa ou indulgente.
Alice é só Alice mesmo. E mais nada.
Por enquanto...

domingo, 24 de março de 2013

Alice na Contramão


E Alice sentia que sua vida andava era na contramão.

Enquanto seus anos viravam e as rugas se aproximavam, ela sentia-se uma menina, jovem e liberta. Enquanto a flacidez ameaçava, havia liberdade nos movimentos. Quanto mais a rigidez muscular lhe parecesse íntima, mais flexível sentia suas articulações do corpo.

Alice estava na contramão da vida. Agora não tinha medo de quebrar coisas no meio, de pular de ponta, de fazer cambalhotas no amor, de dar sentido às piruetas controversas, nem dos embaraços de ser livre. Não tinha medo. Tinha é vontade.

E perambulava pelos trilhos da sua biografia na ponta dos pés imitando uma bailarina de circo que quase-vai-mas-nunca-cai. Andava na corda bamba da contradição, atravessava a rua sem dar as mãos, cantava alto e desafinada debaixo d’água, vendia ideias aos transeuntes e fotografava cenas tolas e corriqueiras como se fossem o mais belo dos arco-íris com um grande tesouro no final.

Andava ao contrário do que o mundo dizia ser certo. Tudo nela brilhava, pulsava. Era ofegante, não se limitava ao máximo, queria é mais. Não era soldada da vida, nem tinha sua alma subornada pela banalidade do sinal verde aberto que dizia “passe”. Ela saltava. Alice estava na contramão de tudo.

Era uma delícia isso de andar de costas pra frente. Alice adorava a contramão. E lhe parecia o caminho mais certo.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Alice e quando o tempo para em Alice


Aí um dia ela olha no jornal as notícias de ontem. E das notícias de ontem tira conclusões de amanhã que já é hoje. E embola. Bagunça. Escurece.

Escure as vistas, enrola a língua, a garganta aperta, o corpo treme por fora, os olhos umedecem e a voz some, o mundo para e parece que ela nunca mais vai ser feliz de novo.

É quando o tempo para em Alice.

E depois que o tempo para nela, ela desperta e pensa que jogou a vida toda fora enquanto o tempo andava lentamente, antes de parar. E este tempo que já passou foi para o buraco da sua existência. Um buraco lixo de Alice. Anos de tempo no seu buraco. E ainda insiste em pensar em tudo de ruim deste tempo, como se assim, ele deixasse de existir por si só. E consequentemente o buraco desenchesse de tanta ladainha.

É quando o tempo para em Alice.

Aí um dia ela sente-se abandonada, sozinha e largada pela vida. Sente-se injustiçada e impunemente maltratada. Ninguém ligou para saber dela, das suas alegrias e nem das suas dores. Ninguém ligou ou mandou uma mensagem. Aí neste dia, estropiada e amargurada, sente uma enorme vontade de vomitar todo o gosto podre do lixo de tempo em quem lhe causa tanta dor. Mas o que queria mesmo é ter a bendita coragem de dizer, sem pudor, “vem ficar comigo”.

É quando o tempo para em Alice.

Blasfêmia que este tempo de lixo era para Alice! Um grande amor que não termina com o feliz para sempre. Ocupou seus dias enamorados, seus dias de pipoca e filme de domingo e até mesmo seus dias chatos e desentendidos. Alice não queria, mas sentia era raiva. Não era pessoa pequena que se encaixasse na velha fábula de um dia da caça e outro do caçador. Todo dia era dia dela. Ela, que sempre se virou, não era mulherzinha que corre e pede arrego quando transborda. Faz é remenda e conserta. O outro que viesse em rastejos e socorros e pedisse aquele beijo que faltou. E ela não daria.

Alice não era gente que se estratifica em prazer e perdão. Alice não aceitava menções de que habitava o lugar comum de quem sofre de dor de amor. Haveria de ser diferente. Afinal, a escolha era dela. E dele. Eles é quem desistiram deles. Ela disse não. Ele também disse não. Haveriam dito mesmo?

É quando o tempo para em Alice.

Aí um dia ela não ligou mais e ele não deu mais bom dia. Aí ela não sabia mais se ele ia fazer trilha de moto e ele não sabia mais se ela tinha cortado os cabelos. Não sabiam mais chorar juntos. Cansaram da rotina dos almoços em família, de apoiar os sonhos sonhados e nem realizados. Aí um dia eles não queriam mais ficar no para sempre.

O danado do tempo passa com uma rapidez que nem jornal acompanha este furto de sorrisos bestas de gente picada pela paixão. Aí passou a sexta, o sábado e o domingo. Aí passou e foi passando e passando o tal do passado, acaba mal resolvido e empoeirado como uma lembrança torta numa prateleira no fundo das ideias. Fica lá, jogado às traças que tratam de comer tudo que sobrou.

É quando para tudo. Para o tempo e a respiração de Alice. O passado dói, então, como em todo mundo. E dói salgado pelo rosto e apertado no peito. Dor que não tem apoio de aconchego ou abraço apertado com o cheiro daquilo. É quando o tempo para em Alice. E é quando Alice finalmente chora de coração partido.

Janela da alma... E sombra.

Janela da alma... E sombra.

Quem?

O que disse Richard Pekny