Designer by Luiz Cotta

Alice e sua Sombra

Alice não é Ágata.
Alice não é Renata, Débora, Aline, Ana e muito menos Carolina.
Alice não é bailarina, professora de forró, santa ou indulgente.
Alice é só Alice mesmo. E mais nada.
Por enquanto...

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Alice em Quarentena



Precisava exalar aquela energia toda tão desconcertante. Vinha em formato de angustias, choros, aflições, alegrias e, enfim, saudades.

É que, na verdade, a única live de que participou foi a do seu próprio show, ao som de uma playlist dos anos 90, cantou e dançou para seu gato. Foi admiravelmente ignorada.

Fez velas aromáticas, doces de travessa, sabonete líquido, lasanha de cogumelos, cestos de vime, diy´s diversos com corda de sisal. Já tinha cortado os cabelos com apoio do espelho. Não sabia mais onde estavam os cadarços do tênis de corrida. Também não procurou.

Percebeu: a quanto tempo não passava um perfume! Era estar em si inclusive no cheiro bom de nostalgia. Experimente cheirar o próprio braço. Vai perceber em si um cheiro bom de estar.

Quando o tempo parou nela. “Prela” ficar nela. Reparar o rumo. Acertar o leme.  Popa. Proa.

Andava cansada de ficar indignada. Mas tão cansada que preferia alimentar seus próprios contentos.

Continuar vivendo, só que em silêncio. Ninguém precisava atesta-la. Estava ali. No momento em que os segundos eram enormes e os dias esvaiam sutilmente. Tão sutilmente que, se observasse com atenção, “botando bastante reparo”, poderia ver o tic-tac do tempo passar, a olhos vistos.

Melhor orientar a sua concentração, estado permanente de centralização em si.

Ordinário?

Perceber-se casa, acolhida de jornada: Saber-se sua própria matéria prima!

E, vez em quando, se admirava: “Tem gente que insiste em gostar da gente mesmo quando não damos motivos. O que essas pessoas veem na gente? Ah! Certamente a gente deveria ver também”.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Alice e seu protetor

Ele gostava de explicar pra ela coisas sobre a vida, sobre os relacionamentos, sobre as inter-relações. Ele curtia contar como era o funcionamento do corpo, do carro, do mato. Como ela deveria se atrever a certas coisas e quando não deveria dizer ou fazer absolutamente nada: no máximo sim ou não.
Não que ela não soubesse, mas era bom o tal de ser cuidada, orientada quantas vezes fossem necessárias. E recorreu inúmeras vezes ao abraço pronto, a voz ora doce, ora apreensiva, mas sempre direcionadora.

Alice era independente e dona, muito dona do seu próprio nariz arrebitado. Até arrogante, poderiam dizer. Mas o manto daquele colo lhe trazia um calor cálido, um amor não expresso, mas nítido nas “não palavras” mais expressas do cuidado.
E ele, cuidador dela, era um anjo sem asas cheio de acalanto, frases secas que terminariam sempre num doce entrelaçar as vezes incapaz do dizer eu “te amo, menina chata”.
É, ela era a menina dele. Eternamente o seria. Ele diria que não, que as escolhas da vida seriam sempre dela, mas nada como uma ligação com o tal do “preciso de você. Agora”. - Sempre, prontamente atendida.
E, pra Alice o nome disso era gratidão, sem mais ver.

E dizia agora: Obrigada, obrigada, obrigada!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Alice e o Copo de Veneno

Disseram que ela era neblina na vida dele.

Ela não queria ser neblina na vida de ninguém. Isso de ser neblina, de ser estática, imóvel, constantemente rarefeita e escuridão rasteira do outro. Tinha naquilo um ar de solidão, de profundidade emocional, certo inverno constante.

Havia uma tristeza não contida em quem dizia e uma outra discreta e jogada nela, advinda de quem trazia em si a informação repassada. Era pra ela veneno que vinha bonito em taça de vinho tinto.

- Você é uma neblina na vida dele, vinha escrito.

Taça de cabo longo, boca larga. Bebida cor das vestimentas de Baco. Cheiro doce, pueril até. A vontade era de pegar a taça e gorgolejar, sorver aquilo tudo, inebriar-se daquele líquido tóxico e, enfim, padecer iminente ao findamento.

Disseram que ela era neblina na vida dele.

Não queria aquilo. Falta de luz na vida dele, nevoeiro, presente nos faróis dos carros que madrugam.

O veneno, aquilo que lhe era entregue e que costumava beber, não seria mais de seu pertencimento. Largaria logo aquela taça de cristal, com líquido turvo. Espécie de decadência moral servida em liquidez . Pois o veneno haveria de continuar lá. Ela é que decidirá, ali, que não mais tomaria, não mais se seduziria. Não mais se deixaria levar.

E sobre ser neblina no outro, era outra decisão tomada. A neblina, consternação gelada, gotículas fatídicas daquela alma que se negava a caminhar e dar passos doloridos em direção ao que não se sabe, era decisão do outro. Então e portanto, a neblina era causa e consequência do outro no outro. Não tinha absolutamente nada que ver com ela. Nada. Assim como o veneno.

Chegava a crer que eram quase que a mesma coisa, os dois. Porém, se ficasse ali, por muito, perderia muito do seu tempo, coisa das mais preciosas. Trataria de ir-se embora, tomar sorvete em bolas grandes de pular arco-íris. Ele que se afligisse com sua nuvem negra e bebesse a própria peçonha.

Ela iria balançar na rede vendo os verdes pastos e as árvores num dia azul. Faria companhia a quem chegasse.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Alice retrô

Em tempos da internet das coisas, da inteligência artificial, da automatização de quase tudo, ela achou tão linda a possibilidade de ter sua bicicleta em estilo retrô que não pensou duas vezes! Colocou logo a cestinha de vime, o assento de couro com três molas, pedais em alumínio e uma buzina fofa. Parecia com aquela sua segunda bicicleta, uma azul que seus pais compraram e trocaram pela primeira, aquela toda no estilo militar, que escolhera aos três anos. Na época não tinha gostado da troca. Hoje, se via voltando a um passado distante e, em conversa com seu pai no telefone, se viu dizer que o mais legal era deixar o carro em casa e colocar a mochila na cestinha junto às flores colhidas no caminho de pedras enquanto pedalava para o trabalho.
Haveria quem a achasse louca. Mas essa era a parte que não mudava. Pelo menos seria uma louca consciente. Emitiria menos gases, andaria sempre à direita como havia aprendido desde menina. Sim, faria uso das luzes quando do entardecer. E, no caso de uma parada habitual para um vinho, não haveria problema com bafômetro. Estava feliz. Não era de esportes. Mas era de ser diferente. E era de ser só dela.

Ajeitou girassóis na cesta, aprontou a mochila, calçou uma sapatilha e foi. Aquilo de se desconectar era bom. Buzinou. E sorriu.

Lhe faltariam rodinhas?

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Alice e o Grupo - Isso que era Amor

Ela estava chateada com aquilo tudo. Aquilo de tanta gente sabida, de tanta gente conhecedora de tantas coisas que terminavam em desentendimentos. Alguns diziam-se isso, outros aquilo, mas ninguém dizia-se “a gente “. Que coisa chata. Ela queria mesmo era a liberdade de pegar uma rosa vermelha na roseira da avó e enfeitar a mesa do almoço que parecia que nem ia mais acontecer. Eram muitas telas ligadas. Das tv’s, dos notebook’s, dos celulares. Ela queria todos sentados à mesa, com taças elegantes de vinho tinto, copos de uísque, latas de cerveja e risadas soltas. Ela queria a poesia que outrora trazia os violões e as cantigas e não os desfalques daquele detentores das verdades. Por isso tinha marcado aquele almoço-jantar, com amigos e familiares. Por isso ainda tentava, um tanto sem jeito, unir fracos e oprimidos-todos, naquele bem comum-meio-refeição-união-reunião. Que frustração. Henrique estava mal com Mariana, que andava descontente com Malu, que, por sua vez, se desentendeu com Débora que, mesmo muito amiga de Aline, não conseguia se acertar com Marcio, casado com Bruno. Já Alexandre e Ana, tão tranquilos antes, agora não aceitavam mais a relação e temiam que influenciassem os pequenos Marco e Simone. Alice estava brava com todos que eram tão desiguais porém juntos antes mas que agora estavam tão etna-mente desunidos. Ou por classes, cores, credos ou outras diferenças que os tornavam tão multilindos. Estava indignada com eles ou até consigo mesma. Seria assim pra sempre? Teria sido sempre assim, mas não havia percebido?

De qualquer forma, foi ao jardim da casa da avó, pegou aquela única rosa vermelha, algumas amarelas e encontrou uma branca solitária, recentemente brotada. Colocou na mesa, no centro. Serviu o vinho, o uísque, as cervejas e se sentou.
Aguardou. Alguns vieram. Desligaram-se as telas, mesmo que não se tivesse pedido. O grupo, diminuto, cercado de desconforto, se sentou.

Aos poucos, as crianças puxaram assunto. Isabella e Ike começaram a brincar. Karinna e Viviane pediram a Joice batatas fritas. E acabaram todos se servindo. Rodrigo passou aos pequenos as maçãs colhidas no pé e Juliana fez os pratos dos bebês. O que era estranho se des-transformou e novamente fez-se aquele típico encontro. Todos comeram e beberam. Sentaram-se à lareira mais tarde e riram. Recitaram poemas, tocaram violão, clarinete e piano. Conversaram a luz de velas e as crianças dormiram, exaustas. Alice deu as mãos a Diego e riu por entre os dentes. Não mais pensou no desenrolar das coisas. Só se deixou levar e sentiu o gostoso daquilo que era o “estar”. O grupo, menor que de costume, acabou por ficar mais conciso, unido, e mais bonito até. Continuou multi, diverso, bagunçadente divertido e tolerante. Era lindo. É. Era isso. Era lindo. Sentou-se no seu canto preferido, pegou seu gato no colo, acendeu um cigarro e contemplou a noite pela varanda. Pensou: Aquilo sim era amor.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Alice e a Caixinha das Coisas Esquecidas

E ela resolveu abrir a caixinha das coisas esquecidas que ficava debaixo da cama. Releu todas as críticas e todas as declarações de amor. Ficou indignada até certo ponto, depois achou hilário e depois parou de ver sentido naquela coisa, naquilo tudo que era bobo e inútil.

Pegou a caixinha e jogou pela janela do quinto andar. Algumas mensagem se desfizera no ar e outras voaram pra outro canto qualquer. Não era mais importante e não doía mais. 

Virou as costas sem dar tchau e foi embora.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Alice quando resolveu ficar

Sua inquietude era uma forma de parar os sentimentos que a invadiam peito adentro ha tempos, sensações confusas e um pouco mórbidas. Era  um certo jeito de encher-se dentro sem o risco de fim e vazio.

Saia pelos cantos da vida tendo encontros inesperados e paixões diárias para o resto da vida. Ela se jogava intensamente de alma e de corpo. Era de arrebatar seu próprio coração, de tatuar o nome no braço, de fazer juras de amor eterno de um instante. E quando ia embora, ia embora. Tatuava outro nome por cima e tratava de seguir com os caminhos que tinha. Esquecia as chaves, o endereço e o telefone.

Perambulou assim, de calçada em calçada, por humores vagos, desvios tortos, sem medo de doer ou arranhar o peito. E borboletava pela vida sem lugar pra pousar.

E aí um dia ela descobriu, com certo ar de ineditismo, que era possível quietar e ter conforto num determinado lugar. E que era possível olhar para um só lugar, com uma só vontade. Ah.. Já era isso. Um sorriso torto e um coração cheio

E um dia ela percebeu que já piscava mais demoradamente com lembranças de tão pouco tempo e que a quentura do afeto era a coisa mais deliciosa que recebia dele. Estava no cinema e deixou que segurasse sua mão. E ela se assustou por ter passado tanto tempo até que o peito ficasse vermelho e as mãos trêmulas de maneira deliciosa.

Foi quando Alice parou de correr e resolver ficar. Era gostoso demais esperar. Lhe fazia bem o voar e o chegar. E era uma saudade que não machucava, era um abraço que falava mas era  silencioso, era um beijo que encaixava os corpos. E era mais do que ela pensava receber. E descobriu que seu mundo poderia ser ordenado e bom! Aproveitou a liberdade sem moderação, deixou as sacolas num canto, foi nua. E tratou de ser feliz!



quinta-feira, 31 de julho de 2014

Alice Eufórica

E essa euforia doida de viver com urgência cada intensidade da vida a deixava um pouco tensa.
Andava se jogando em qualquer cavalo branco que passasse fazendo-se de intrigante. Comprava coisas, corria para andar mais rápido na BR congestionada e ficar parada era quase a morte. Chegava a doer.

Alice estava muito. Muito em tudo. Muito forte, muito dura, exagerada, metendo o pé nas pedras do caminho, sem mandar notícias de nada!

Vendia alegria com sorrisos, permutava prazeres e dançava imprimindo sensualidade simplesmente para o seu bel prazer, cobrava favores ora prometidos.

Se era só um desespero em viver, uma angústia tapada com acontecimentos extremos, ah, isso Alice não sabia. Mas ia como um trem desenfreado, desbravando as selvas da vida, perdendo medos, realizando sonhos, sentindo gostos, experimentando coisas e sensações e ela não podia desacelerar! Ufa! Dizia coisas, peralta em seus gestos e movimentos tanto desastrados quanto minuciosos. Estava o tempo todo em êxtase, buscando o máximo, andando rápido pra chegar num lugar que nunca era o fim. Não tinha medo e adrenalina corria por entre os dedos. Ia.

Alice olhava é falava daquela lua linda daquele céu imenso, mas tinha parado de olhar pela janela. Queria todas as estradas, tinha fome de todos os cheiros, mas também persistia em uma certa nostalgia do que já tinha sido que guardava numa gaveta qualquer do criado mudo e ia embora. Sempre ia embora.


Embalava grandes planos e não cumpria nenhum, ia conhecendo gente e não quietava nunca. Comia e nunca saciava a fome que era um buraco sem fim dentro dela. Por mais insano que parecesse, para ela, naquele momento, parar era deixar de existir. Doía forte na alma e no peito. Não podia deixar de correr, e correria até saber para onde ir.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Alice indignada

Imaginava como seria sem graça a vida de quem não morre de amor, não fica puto da vida, não clama por mais e não adoece de paixão.

Deveria ser muito sem sal uma vida sem pimenta ardida nos olhos e sem indignação no peito. 

Alice achava que os altos e baixos davam um tom à canção, as dores e as tristezas davam veracidade ao estar vivo e respirando.

Coisa mais sem graça não poder sambar sem ritimo, sem respirar fundo quando receber flores, sem deixar cair uma lágrima quando a saudade aperta, sem se deixar levar pelas mãos por alguém que inebria.

É... Devia ser muito sem graça sobreviver ao invés de viver intensamente. Era preferível morrer a passar todo o tempo anestesiada. Alice era sempre indignada. Queria tudo. Não queria o nada.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Alice Bagunçada

Ele disse que ela era magnética, espevitada, rápida como um cometa, estranha e interessante.

Ela, por sua vez, nos sabia o que fazer com as mãos e muito menos com os olhos, se o encarava ou se baixava a cabeça.

Eles se bagunçavam.

Ela não sabia o que ele queria. Também não sabia o que ela mesmo queria. Talvez até não quisesse nada. Mas estava gostando e achando muito graça daquilo tudo. Afinal, era muito bom ser mimanda...

Janela da alma... E sombra.

Janela da alma... E sombra.

Quem?

O que disse Richard Pekny