Designer by Luiz Cotta

Alice e sua Sombra

Alice não é Ágata.
Alice não é Renata, Débora, Aline, Ana e muito menos Carolina.
Alice não é bailarina, professora de forró, santa ou indulgente.
Alice é só Alice mesmo. E mais nada.
Por enquanto...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Alice e sua Partida

Tapo os ouvidos para não ouvir
Fecho os olhos
para sentir minhas lágrimas quentes me salgarem o rosto
Tento não ver, não escutar pra não sentir
Coloquei agora algodão em cada buraquinho por onde passam informações
Meus tumultos são muito doloridos e este seu sorriso me machuca
Seu olhar me fere e sua cara de cumplicidade me golpeia

Tapo os olhos pra não sentir o cheiro podre
Fecho-me para não encarar futilidades que ainda tentam me apanhar
Tento me esconder dos ataques que por tempos me saudaram
Escolho não ouvir prolongadas cenas recortadas

Enquanto estou aqui, sentada neste espinho, faço força pra suportar alegremente e não me contaminar pelo tchau azedo que estou prestes a dar. Porque não gosto de podridões, de coisa enlatada vencida, de açúcar mascavo cor de rosa que não é. Não quero falsas lembranças. Quero-as de verdade pra mim. E ainda quero pra você também. Se mea culpa lhe parece, de fato, isso pouco me importa. Me importa querer de verdade.

Por isso me tapo, me fecho, me escondo. Pra não levar o feio, o incômodo e o chato. Quero a barca leve. Com a leveza que vim quero ir. Não quero peso de tambores, de passos, de containeres de facilidades adquiridas. Quero zarpar limpa, de alma livre, com vento fluindo.

Me chego de tempestade. Essa que nos causamos, por mim e por você. Essa que nos transformou em eternos desconfiados, quase inimigos, ex-cúmplices e fraternos. Quero a liberdade de ir só. Sem te carregar como fardo.

É por isso que tapo os ouvidos para não ouvir
E fecho os olhos


E se perguntarem o porquê dos algodões diga a la “Pétalas de uma Flor em Mim”, que já cuspi sangue dos cactos que engoli e que agora solto bolinhas brancas das nuvens que resolvi saborear.

E aos preocupados diga que fui como haveria de não voltar. Fui-me embora para onde encosto esta porta, pulo pela janela e vou encontrar um labirinto cheio de cores novas aonde vou me atirar. Deixo somente meus algodões e a leveza do meu estar. De resto, até um dia, até de novo, o destino das escolhas nos faça reencontrar.

Seco as algas da face, clareio o rubro da face, descarrego-me das dores, das mutilações e das guerras que batalhamos. Me provoco leveza, paciência e equilíbrio. Porque vou-me. E te deixo sem vírus, sem doença e sem dor. Fiquemos bem.

Abro os olhos e agora vou.

domingo, 26 de abril de 2009

Alice em VIBRÁTIL

Eram dois. Eram duas. Eram corpos.

Eram como se fossem várias cenas. Vários choros, birras, corações partidos. Um monte de paixões completamente incuráveis. Enxergava em corpos seu cheiro de sexo, seu roer de unhas, seus pecados íntimos, seus sonhos de um grande amor.

Eram dança, mas eram vento. Era como se dançassem todas as suas conquistas e cada lágrima que lhe escorreu. Eram música de pele. Eram expressão de raiva, de medo, do novo. E corpos mimosos que eram como seu puro coração. Desde que se apaixonou pela primeira vez, desde o desejo proibido, desde as descobertas, perdas, brigas e reconstruções. E eram gente. Gente que foi, gente que passou, gente ali do lado.

Eram dois. Eram duas. Eram corpos.

E eram vibração. Pulso. Firme. Quente. Assim como a sintonia das respirações. Daria pra ouvir corações batendo, sangue correndo nas veias, salivas engolidas numa garganta apertada. Daria para sentir a oscilação dos sentimentos, a intensidade dos olhares. Mais. Dava pra ver por dentro. Dentro dos corpos de vento que diziam a flor das peles enquanto teatravam a verdade. Enquanto gritavam surdos o que, de tão forte, era sísmico, era inabalável, era VIBRÁTIL.



Serviço:
VIBRÁTIL - estréia dia 25/04 (sábado) às 20hs no Espaço Ambiente
Concepção: Alex Silva, Natalia Reyes e Priscila Patta
Coreografias: Natalia Reyes e Priscila Patta
Direção coreográfica: Alex Silva
Elenco: Priscila Patta e Natalia Reyes
Duração: 25 mim

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Alice e sua pequenez

Nasceu assim mesmo, assim meio atravessada, travada, distante, arraigada.

Sempre foi assim mesmo, meio torta, meio boboca, meio mistura, pintada, pequena, encolhida, sistêmica.

Continua assim irreverente, desbravada, cheia de marra, inexperiente.

Ela é boba, esperta, transversa, avessa, inconsistente, incondicional, crente.

Vive assim, de lado, abestada, iludida, no meio do caminho, doida e pertinente.

E tudo isso que é faz parte do que nasceu, foi, continua, é e vive.

E tudo isso lhe tranca a garganta e esmiúça como radinho de pilha entupido, pingando fiapos de grunhidos. Eram pra ser gritos. Mas são só chorinhos miúdos. Era pra ser explosão. Mas é só pouquinho.

E de todos os poucos que é, de toda a miudeza que faz, de tudinho que mal aparece em ser, Ela sabe que issozinho é gigante aos olhos de quem consegue ver. Assim como seu choro é audível aos ouvidos de quem lhe tem a chance de escutar. Mas, por hora, chora fiapos gatinhos.
Um dia vai chorar leão. Mesmo que continue grunhindo.

sábado, 18 de abril de 2009

Alice e seu grande amor

E foi ali, naquele parque, à noite, embriagada de gente diferente, de dreads, de rasteirinhas, de boinas, de cheiros, de luzes e de música...

Foi ali
, de frente para aquele palco, na grama, com amigos de todos os tipos...

Foi ali que me deu uma vontade enorme de compartilhar com você o que me passava no peito.

Foi ali que tive vontade de ter você do meu lado, só pra ficar do meu lado e entender a minha admiração. Porque só você entende aquela minha admiração louca, a vontade de fazer parte do som, de me deixar levar pelas notas, de dançar, voar. Porque só você entende que aprendi a arte de ouvir um baixo e um pandeiro. Porque foi você que me ensinou.

E foi ali, naquele lugar que queria seu ombro, porque é tudo o que eu quero, pra falar que eu estava achando o máximo aquela gaita da mocinha de trás que se juntava à melodia daquele rock 80’s e fazia música.

E foi ali que te queria comigo pra aproveitar tudo que eu tenho certeza que você ia adorar.

E foi ali.

Ali que tive vontade de registrar meus olhos, meus ouvidos, meu tato, meus sentidos todos pra você ver.

Ali que me deu vontade de te ligar, mas você não atendeu. Mas eu precisava muito saber se aquilo que acompanhava a sanfona era mesmo um bandolim gigante ou era um violão maluco. Porque foi o único violão maluco que vi tocar bonito como você tocava “Asa Branca” foi aquele, naquele lugar.

E, naquele lugar, a nostalgia me pegou de jeito. E meu coração... Ah, meu coração... Eu comecei a entender. Meu coração estava vazio. Vazio naquele lugar cheio de gente. Bailando numa cantoria que eu adoro. De um jeito que eu adoro. Porque eu estava linda, estava feliz, plena. O meu coração estava vazio. Isso tudo era eu, naquele lugar.

E foi bem ali que entendi que meu coração estava vazio de um amor. Daqueles que enchem a gente e estouram por dentro, por fora, borbulham vermelho, brilham os olhos.

Naquele lugar, então, eu entendi de vez. Que você foi meu primeiro e único grande amor. E sinto muito a falta deste tipo de amor.

Mas o que quero mesmo é explodir de amor no peito e recostar a cabeça escutando uma sanfona e um bandolim violão maluco numa asa branca. Eu quero um amor que explode. Como você me explodia.

domingo, 12 de abril de 2009

Alice disse ao Tempo

o tempo tem o mesmo tempo sempre
uma hora sempre tem 60 minutos
um minuto sempre tem 60 segundos e por aí vai
uma hora sempre tem 3.600 segundos
e se pensarmos em milésimos...

o tempo, que tem o mesmo tempo sempre, às vezes demora mais ou menos, apesar de respeitar o tempo de cada milésimo, segundo, minuto, hora. mas desrespeita as leis da espera prolongada ou a lei de quando o tempo não para. isso porque ao mesmo tempo que corre ele demora a chegar.

o tempo, que tem o mesmo tempo sempre, nos prega peças de tempo. um minuto demora muito mais pra passar quando olhamos pra ele. e é muito rápido quando dependemos dele.

esse tempo, que tem o mesmo tempo sempre, acontece o tempo todo e em todos os lugares. quando quero ir embora, agora, faltam, ainda 38 minutos. quando quero saborear minhas coisinhas só minhas ele passa 38 minutos como se contasse até dois.

mas que tempo é esse, que tem o mesmo tempo sempre, em qualquer hora e lugar, que me incomoda por vezes e me alivia por outras?

resolvi, então, fazer um acordo com este tempo, que tem o mesmo tempo sempre e é atemporal. ele agora não existe pra mim. minutos não significam nada. 38 o quê? nada. espaços. espaços é que existem. espaços incontáveis, nada tangíveis ou visíveis. só espaços.

e se tiver que contar, combinei com tempo, o tempo que tem o mesmo tempo sempre, contarei em polegadas.

facilita a minha vida pensar que faltam polegadas de tempo pro tempo passar hoje. e, como não sei quanto tempo tem uma polegada de minutos, eu espero o espaço de tempo passar.

sábado, 4 de abril de 2009

Alice por um grande amor

tomara que um dia voce entenda que me perdeu por tanto me amar
tomara que um dia voce entenda que me perdeu, aos poucos, por me glamourizar todos os dias
tomara que um dia voce entenda que me perdeu, pouco a pouco, por me dizer linda todos os dias
por me trazer cafe da manha na cama todos os dias
por me ligar todos os dias
por me mandar flores
por fazer sexo comigo
por me olhar tenramente
por me deixar sempre muito satisfeita

tomara que um dia voce entenda que me perdeu por me dizer e, especialmente, por me amar todos os dias

tomara que um dia EU ENTENDA que te perdi por te amar tanto e nunca entender que tive em voce tudo o que sempre quis

tomara que um dia eu entenda e voce me entenda que acabou porque EU SOU DIFICIL e nao por nao te querer mais

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Alice e seu abandono

se me abandonou foi porque quis. eu era muito pequena pra tomar decisões. eu era muito ingênua pra ver relações massacrantes além da minha. eu era uma menina. e você foi embora. e pior: foi embora aos poucos, como que para me acostumar com a sua falta. foi embora sem dizer tchau. só dizia até logo. mas foi indo. e até logo cada dia era mais distante, mais longe de mim. e você se arrumou por lá, aí onde está agora e me deixou aqui. também tive de me arrumar.

por aqui as coisas eram difíceis de entender. eu era muito pequena, menina boba. e achava que era, sim, por minha causa. foi por não gostar mais de mim que foi embora. que arrumou suas coisas sem que eu visse.

só vi mesmo o vazio do seu armário. as portas abertas e nenhuma camisa de gola. nenhum sapato bico fino. nenhum cinto marrom-preto. nada das suas coisas de barbear ou de engraxar sapatos. não vi seus tênis de correr.

e aí eu corri. desci as escadas como se não existisse elevador. foram cinco lances até a garagem. e aí eu vi que o carro azul não estava lá. e procurei com desespero a sua bicicleta. era nossa aquela bicicleta. mas só estava a minha lá. azul, com cestinha branca e fitinhas penduradas. abandonada. você foi embora e abandonou até a minha bicicleta que nunca mais saiu de lá. deve ter ficado pra presente para outras crianças do prédio onde morávamos em plena harmonia. junto com todas as outras coisas que você deixou também. junto com as brincadeiras de cosquinha. junto com os vinis do caetano. junto com os livros assinados “arnaldo e data”. junto com o que me lembro de ter com você. junto com as aulas de violão que eu não gostava e aulas de fração que eu não entendia. junto com a sua aprovação para fazer as coisas que só você podia aprovar.

e foi.

hoje, que não sou mais menina boba, ainda sinto falta das coisas bobas daquela época, antes de você ir. sinto falta do seu cheiro, do seu colo, das brincadeiras à toa. até sinto falta das aulas de violão.

hoje, que já aprendi fração e decimais ainda tenho receio de me dizer “não, não pode”. ainda me sinto acuada quando penso que fiz alguma coisa errada e que, se você não tivesse ido embora de mim, me colocaria de castigo.

hoje, mulher, ainda me sinto menina. boba. criança. quando penso que você me deixou e foi fazer outras coisas da sua vida. e isso não foi certo. porque não vamos mais fazer passeios ciclísticos, soltar pipa ou quebrar casquinha de ovo pra ver pintinho nascer no galinheiro do sítio.

porque hoje, que não sou mais menina boba, mulher, já crescida, sei que nunca vai preencher o espaço que deixou.

então comecemos por aqui. do que quer brincar agora?

Alice e seu gostar

Aí perguntaram: Então, Alice, o que gosta de fazer?
Putz!
Dúvida.
Calada.
Pensativa...
Responde: Eu gosto mesmo é de correr!

A resposta lhe foi tão surpreendente quanto para o interlocutor. Gosta de correr? O que faz aqui? Porque está vestida assim? - Deve ter pensado. Mas logo tudo haveria de fazer sentido.

Pois ora, Alice tinha sempre a cara lavada. Apesar das suas sardinhas e o cabelo negro, nada mais lhe era óbvio. Muito menos provocante. Poderia passa despercebida, embora nem sempre conseguisse. Mas poderia ser considerada “normal”, “comum” se no meio de outras mulheres. Tudo bem que era um pouco diferente. Era um pouco mais ousada, encarava olhos sem medo, levantava a face em sinal de confronto ou baixava o rosto para não dar de frente com nada. Andava sem medo de tropeços e escolhia a própria moda.

Isso poderia ser divergente da imagem que se tem de uma pessoa que responde que gosta de correr a uma resposta vaga. Poderia responder que gosta de comida japonesa, peças de teatro, filmes esquisitos, documentários, neurolinguística, estudos psicossomáticos, neuroses, metamorfoses ambulantes... Isso sim faria jus ao vestido rodado, ao rabo de cavalo, ao sapato sem salto, a cara de noite, olheiras e bocas. Mas “correr”? Realmente muito estranho.

Depois da despedida calorosa, Alice pôs-se a pensar. É. Realmente gostava muito de correr. Gostava também da aula de circo, da aula de mágica, do dia ensolarado, da cachoeira, do mar, das trilhas, de bicicleta... E gostava muito de correr. E de sair correndo. Sair trotando. Pulando. Gritando. Sempre gostou.

E, de noite, com a cabeça no travesseiro, pesquisou na sua memória onde tinha ficado este dispor todo que sair correndo, gritando.

E porque há tempos se ocupava muito mais de enfrentar o mundo com a cara lavada, encarando olhares e desviando pessoas em lugares que nem de perto lhe traziam prazer de uma corrida gritante.

Janela da alma... E sombra.

Janela da alma... E sombra.

Quem?

O que disse Richard Pekny