Designer by Luiz Cotta

Alice e sua Sombra

Alice não é Ágata.
Alice não é Renata, Débora, Aline, Ana e muito menos Carolina.
Alice não é bailarina, professora de forró, santa ou indulgente.
Alice é só Alice mesmo. E mais nada.
Por enquanto...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Alice e o Fantasma Dele

Ela dizia ter a sensação de ter sempre uma sombra Dele rondando por entorno dela. Ela ficava abafada e desolada com a sensação de não conseguir caminhar sozinha e ter sempre a sensação Dele por perto.

Era como se Ele não conseguisse viver sem ela e quisesse estar por perto a observando com seus olhos imersos no desejo de tê-la de novo.

Ela queria correr, se afastar, livrar sua mente das coisas dele, do cheiro dele, da barba mal feita dele, dos sonhos que foram deles.

Alice queria viver outras histórias, outras fantasias, outras realidades, outras pessoas. Mas Ele lhe atormentava, condensava sua existência na áurea dela, a curtia em orvalho preparando o bote. Até o silêncio Dele falava alto e fazia doer os ouvidos. As fotos ainda não tiradas do quadro a olhavam naquele abraço eterno. E as poucas migalhas descentes que haviam restado deles estavam na estrada de todos os seus caminhos para que tropeçasse Nele.

Era como se a rodeasse. Com pequenos telefonemas, poucas respostas e nenhuma pergunta. Era uma espera eterna de que as coisas ficassem cômodas de novo, apesar de não serem cômodas de maneira alguma. Eram árduas e sempre machucavam quem estivesse em volta dos conflitos do cotidiano que viviam. E era basicamente isso.

Era uma prisão particular não se deixar livre, não o deixar ir embora pelo caminho do esquecimento, isso de deixa-lo por perto. Ele a sufocava. Ele a prendia. Ele a guiava ao seu bel prazer. Ele não a permitia. Ele abafava Alice como se Ela fosse só o que Ele havia criado Dela pra Ele.

Era notável que a presença Dele só a incomodava porque Ela permitia. Permitia-se vê-lo. E o permitia estar por perto. Precisava, portanto, deixa-lo ir, parar de dar voltas por Ela e seguir seu caminho. Ela também estava “aprecisada” disso, do caminho sem espectros ou assombrações. Ela precisava começar a andar e sentir o vento no rosto branco e sair daquele casulo. Tomaria uma cerveja com aquele colega de trabalho, quem sabe. Ou iria pro samba escutar Silvia Gommes e sapatear na cara da sociedade que lhe impunha um comportamento de dama e Alice queria mesmo é ser desavergonhada e despudorada. Queria, ah, a tal da liberdade. Sem fantasmas.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Alice tinha Medo

Ai, essa dor que não largava do corpo e ela queria gritar.

Subia arrepiando-lhe os pelos até cair quente pelos poros em lágrimas ardidas. Ai, essa dor torturante que dava nó no buraco da garganta. Era de contorcer o corpo em relutância à. Estalava os ossos, doía o peito e corava a face.

Alice tinha era um terrível medo de fins, de inícios e de tudo que mudasse.

 A dor fixava morada ali porque ela não conseguia parar de continuar. Ela não sabia dizer que não, temia profundamente o começar de novo. Era de exalar tortura, aquilo que lhe partia no meio e não tinha anestesia que sarasse. O coração dela não admitia parar de bater. E um fio de rugido baixo e leve ameaçava sair boca afora, pra acalentar a alma. Mas saia suspiro, anseio de pronuncia que não tinha fim porque acabava o ar no meio da vontade de findar-se, o grito.

Mas ela tinha medo dos fins. Os fins que parem começos. Ela temia eternamente parar de sofrer, parar de tentar, parar de sentir e morrer.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Alice e o Buraco

Ele disse, num tom de desleixo: Há muita interferência externas a nós naquilo que tentamos fazer ‘bem feito’”.

Mas era um vazio profundo que tinha dentro do buraco do corpo dela. Era uma coisa que não tinha mais jeito. Era grande esse buraco, era dolorido, era vermelho.

Ela sentia uma espécie de angustia que alguns diriam: “menina, você tem que cuidar disso”, mas que não passava. Aumentava a cada dia e a cada vez que ela tentava desafiar esse monstro desacordado. Porque era um monstro que arrastava correntes se acordado.

Sentia-se menina indefesa e ele não estava aí para ajuda-la a espantar o bicho papão. O bicho a importunava e ele não a abraçava pra estancar o medo e controlar a dor do barulho das correntes se arrastando.

Esse “monstro buraco vermelho era bravo, falava alto e a fazia chorar. Ela só queria ser mais forte que ele, mas era fraca e boba e temia tanto que não levantava a voz e nem a cabeça.

Quando ele não estava por perto... Ela se bastava quando ele dormia. Era cheia de pompas, cheia dela, cheia de Alice, impetuosa e decidida. Mas ele, o que não lhe dava atenção nem carinho, a fazia se sentir um nadinha, uma coisinha inútil.

Ao mesmo tempo em que ela queria viver sem o buraco, ele tratava de crescer mais e se fazer presente como uma dor aguda no estomago. Ele estava nela, era dela, fazia parte do que ela era, o buraco. Ela queria vomitar o monstro e andar pra frente.

E ele disse: “Há muita interferência externas a nós naquilo que tentamos fazer ‘bem feito’”.

Ela sorriu e deixou cair uma lágrima.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Alice Sufocada

Gritava suas lembranças ruins para que saíssem dela e lhe dessem espaço para a calmaria que não haveria de tardar depois da turbulência.

Eram gritos de alívio, palavras sem nome que explicasse a vontade de abrir o peito pra dizer: senti. Senti, doeu, ardeu nos olhos, apertou o peito, mas senti. Com toda a intensidade que é sentir. Senti chorando, senti amando, me decepcionando, me traindo. Senti sem sentir pena. Do que haveria de se envergonhar? Tinha envelhecido dez mil anos nos últimos tempos. Mas a juventude lhe era amiga e fiel escudeira e já iniciara o processo de renovar Alice depois do casulo.

Alice finalmente respirava. Tinha fôlego e não sofria com aquela asma maluca de ficar presa numa gaiola e nem era troféu de ninguém. Não se culpava. Sabia que hoje era Alice porque sobreviveu aquilo. Ela era resultado das convenções e fruto da história. E agora lhe cabia era amaldiçoar as pragas que o destino lhe reservava e ir de encontro a ele dizendo que quem mandava naquela porra era ela!

Cansada de medir esforços em pisar em ovos de codorna, Alice emergia de um afogamento e queria respirar o mundo. Queria era paz e o que mais viesse com ela. Saindo desta incubadora que era detetive de todos os seus sonhos, Alice era livre. Livre de pecados, livre no mundo, livre de andar despida de seus próprios pre-conceitos. E não era o outro o imperador das ordens. Era ela que tanto clamava. E era uma delícia estar só, mesmo com tantos por perto.

Alice prendia a respiração e tragava fundo o ar dos seus pulmões. Prendia os cabelos num coque no alto da cabeça e criava seu próprio samba pra se desfilar, isso de "se bastar". Decidiu, portanto: ela não dependeria de demais ninguém. Muito menos de dele. Deixou um recado frio na secretaria eletrônica e tratou de ser feliz.
E saiu rebolando.

sábado, 4 de janeiro de 2014

...

Alice disse então: "A vida segue melhor sem você".
E só.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Alice e a Estrada

E eram muitas coisas pra arrumar.
Depois de tudo, era a chave quebrada no buraco da fechadura, o box do banheiro fora do lugar e um lugar ao sol onde pudesse colocar o coração para um descanso que lhe tirava por vezes o ar. E era um armário sem ordem, uma louça pra lavar, um pedido de desculpas e uma vontade de colo que nunca ousou lhe faltar. Era um banho refrescante com aquele sabonete novo, a gaveta emperrada a arrumar. Alice vagava entre os pensamentos "fazer nada" e "por onde começar". Essa faxina d'alma era coisa que só depois de tanta água lavada ficava possível tratar. Alice inventou de arrumar as escadas e se livrou daquele curto circuito que vazava fumaça pelo lustre do quarto. Colocou as roupas sujas pra lavar e tratou do coração parar de esperar. Mudou a decoração, usou taças novas, trocou de ano e de cabelo. Escutou fogos de artifício pela primeira vez e viu como era linda a sensação do peito vibrar. Trocou as fotos do mural, deu uma ajeitada nos livros, tomou um gole da taça de vinho e um trago do seu talvez último cigarro. Olhou praquele mundão cheio de estradas a atalhos e resolveu que chegava de ficar parada no mesmo lugar. E foi. Decidido ir por qualquer canto. Na porta deixou um recado simples dizendo FUI. E foi sem olhar pra trás.

domingo, 24 de março de 2013

Alice na Contramão


E Alice sentia que sua vida andava era na contramão.

Enquanto seus anos viravam e as rugas se aproximavam, ela sentia-se uma menina, jovem e liberta. Enquanto a flacidez ameaçava, havia liberdade nos movimentos. Quanto mais a rigidez muscular lhe parecesse íntima, mais flexível sentia suas articulações do corpo.

Alice estava na contramão da vida. Agora não tinha medo de quebrar coisas no meio, de pular de ponta, de fazer cambalhotas no amor, de dar sentido às piruetas controversas, nem dos embaraços de ser livre. Não tinha medo. Tinha é vontade.

E perambulava pelos trilhos da sua biografia na ponta dos pés imitando uma bailarina de circo que quase-vai-mas-nunca-cai. Andava na corda bamba da contradição, atravessava a rua sem dar as mãos, cantava alto e desafinada debaixo d’água, vendia ideias aos transeuntes e fotografava cenas tolas e corriqueiras como se fossem o mais belo dos arco-íris com um grande tesouro no final.

Andava ao contrário do que o mundo dizia ser certo. Tudo nela brilhava, pulsava. Era ofegante, não se limitava ao máximo, queria é mais. Não era soldada da vida, nem tinha sua alma subornada pela banalidade do sinal verde aberto que dizia “passe”. Ela saltava. Alice estava na contramão de tudo.

Era uma delícia isso de andar de costas pra frente. Alice adorava a contramão. E lhe parecia o caminho mais certo.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Alice e quando o tempo para em Alice


Aí um dia ela olha no jornal as notícias de ontem. E das notícias de ontem tira conclusões de amanhã que já é hoje. E embola. Bagunça. Escurece.

Escure as vistas, enrola a língua, a garganta aperta, o corpo treme por fora, os olhos umedecem e a voz some, o mundo para e parece que ela nunca mais vai ser feliz de novo.

É quando o tempo para em Alice.

E depois que o tempo para nela, ela desperta e pensa que jogou a vida toda fora enquanto o tempo andava lentamente, antes de parar. E este tempo que já passou foi para o buraco da sua existência. Um buraco lixo de Alice. Anos de tempo no seu buraco. E ainda insiste em pensar em tudo de ruim deste tempo, como se assim, ele deixasse de existir por si só. E consequentemente o buraco desenchesse de tanta ladainha.

É quando o tempo para em Alice.

Aí um dia ela sente-se abandonada, sozinha e largada pela vida. Sente-se injustiçada e impunemente maltratada. Ninguém ligou para saber dela, das suas alegrias e nem das suas dores. Ninguém ligou ou mandou uma mensagem. Aí neste dia, estropiada e amargurada, sente uma enorme vontade de vomitar todo o gosto podre do lixo de tempo em quem lhe causa tanta dor. Mas o que queria mesmo é ter a bendita coragem de dizer, sem pudor, “vem ficar comigo”.

É quando o tempo para em Alice.

Blasfêmia que este tempo de lixo era para Alice! Um grande amor que não termina com o feliz para sempre. Ocupou seus dias enamorados, seus dias de pipoca e filme de domingo e até mesmo seus dias chatos e desentendidos. Alice não queria, mas sentia era raiva. Não era pessoa pequena que se encaixasse na velha fábula de um dia da caça e outro do caçador. Todo dia era dia dela. Ela, que sempre se virou, não era mulherzinha que corre e pede arrego quando transborda. Faz é remenda e conserta. O outro que viesse em rastejos e socorros e pedisse aquele beijo que faltou. E ela não daria.

Alice não era gente que se estratifica em prazer e perdão. Alice não aceitava menções de que habitava o lugar comum de quem sofre de dor de amor. Haveria de ser diferente. Afinal, a escolha era dela. E dele. Eles é quem desistiram deles. Ela disse não. Ele também disse não. Haveriam dito mesmo?

É quando o tempo para em Alice.

Aí um dia ela não ligou mais e ele não deu mais bom dia. Aí ela não sabia mais se ele ia fazer trilha de moto e ele não sabia mais se ela tinha cortado os cabelos. Não sabiam mais chorar juntos. Cansaram da rotina dos almoços em família, de apoiar os sonhos sonhados e nem realizados. Aí um dia eles não queriam mais ficar no para sempre.

O danado do tempo passa com uma rapidez que nem jornal acompanha este furto de sorrisos bestas de gente picada pela paixão. Aí passou a sexta, o sábado e o domingo. Aí passou e foi passando e passando o tal do passado, acaba mal resolvido e empoeirado como uma lembrança torta numa prateleira no fundo das ideias. Fica lá, jogado às traças que tratam de comer tudo que sobrou.

É quando para tudo. Para o tempo e a respiração de Alice. O passado dói, então, como em todo mundo. E dói salgado pelo rosto e apertado no peito. Dor que não tem apoio de aconchego ou abraço apertado com o cheiro daquilo. É quando o tempo para em Alice. E é quando Alice finalmente chora de coração partido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Alice e a saudade

Ela não sabia do que tinha saudades.

Se dele, se dela quando estava com ele, se dos dois ou se, ainda, da imagem bonita que formavam juntos.

Ela também sentia-se tão livre, que de tamanha liberdade, sentia-se perdida. Era muito espaço, era muito o que fazer. Era pouco direcionamento. Afinal de contas... O que se faz numa sexta-feira à noite? O que faria ela, Alice, na próxima sexta sem ele? O que ela costumava fazer antes do seu coração ser arrematado pelo amor dele? E agora, o que iria fazer?

Mas tinha saudades. Do tempo em que gostava dos afagos, da embriaguez dos cheiros misturados na hora de fazer amor, do olhar que lhe adentrava n'alma, do calor do seu corpo quando lhe falava besteiras ao pé do ouvido. Sentia saudades disso que, ao mesmo tempo em que era distante em unidade de momento, era como se tivesse recebido aquele último beijo ontem. Queria mais.

E sobre a liberdade, que atrevida ela! Ousava lhe dar bochechas rubras quando tinha coragem de viver qualquer coisa nova, mesmo que um simples olhar de banda. Liberdade que lhe enchia os pulmões de ar, que lhe dava sensação de vida nova, de sabores novos, de experimentação. Coisa que ela não tinha coragem de tocar, isso de experimentar.

Ainda apegada ao gosto, não se permitia nada de novo pra saborear por ter a certeza de que não ia gostar.

O que mais lhe tirava o sono é que ela não sabia do que tinha saudades. Se dele, se dela quando estava com ele, se dos dois ou se, ainda, da imagem bonita que formavam juntos, ou se da história que ela imaginava para eles. Como num conto de fadas.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Alice e Asas

Mas ele antes dizia: “vai, voa e pousa. Aqui”.

Hoje ele dizia: “você não voltou e fiquei te esperando” – mesmo sem saber que o voo dela mal tinha começado.

Paciência, foi o que ele não teve.

Ela, por sua vez, meio as flores, se deliciava e sentia outros, e especificamente outro cheiro inebriante, irresistível e embriagado de cravo, canela, barba, pele limpa, crua e nua.

Enquanto ela ia, ele se dificultava e agarrava pedaços de pano de alguém, de outrem que não era quem era de fato seria um possível incomodo pra ele, mas já era e uma provável verdade pra ela.

Ele suplicava pequenas coisas. Ela queria mais e sempre e a cada vez mais. Sempre proporcionalmente ao quanto ele se inclinava por sob a sombra dela.

Ela não era de sombra, muito menos de súplicas, quanto mais de rasantes arrebatamentos. Ela queria sempre mais e quanto mais ele lhe implorava, mais queria voar... 

Ela abandonava, aos poucos, o ninho, o canto. Eram escalas diferentes, macias, às vezes revoltas dentro do peito, outras sem mais pormenores, tamanha insignificância. Mas eram sempre escalas, sempre estacionamentos, sempre verdadeiramente PAUSAS do voo de ida e volta, que não tinha voltado ainda.

E ela, displicente e indisciplinada com qualquer regra de 20 ou 30 cm, desde que régua, desde que obrigatoriedade, ia-se aos ventos, meio que perdida, meio que indo, mas nada de voltando. Ia, sem pretensão de saber para onde voltar, sem desistir, porém sem pensar, que dia ou outro teria que voltar. Ou chegar. Seria relevante. Teria que sacudir-se toda num outro pedaço, ou neste mesmo, mas teria de pousar. Qual canto fosse...

É... ela teria, um dia ou outro, que pousar. Talvez fosse hora, já.

Janela da alma... E sombra.

Janela da alma... E sombra.

Quem?

O que disse Richard Pekny