Depois de tudo, era a chave quebrada no buraco da fechadura, o box do banheiro fora do lugar e um lugar ao sol onde pudesse colocar o coração para um descanso que lhe tirava por vezes o ar. E era um armário sem ordem, uma louça pra lavar, um pedido de desculpas e uma vontade de colo que nunca ousou lhe faltar. Era um banho refrescante com aquele sabonete novo, a gaveta emperrada a arrumar. Alice vagava entre os pensamentos "fazer nada" e "por onde começar". Essa faxina d'alma era coisa que só depois de tanta água lavada ficava possível tratar. Alice inventou de arrumar as escadas e se livrou daquele curto circuito que vazava fumaça pelo lustre do quarto. Colocou as roupas sujas pra lavar e tratou do coração parar de esperar. Mudou a decoração, usou taças novas, trocou de ano e de cabelo. Escutou fogos de artifício pela primeira vez e viu como era linda a sensação do peito vibrar. Trocou as fotos do mural, deu uma ajeitada nos livros, tomou um gole da taça de vinho e um trago do seu talvez último cigarro. Olhou praquele mundão cheio de estradas a atalhos e resolveu que chegava de ficar parada no mesmo lugar. E foi. Decidido ir por qualquer canto. Na porta deixou um recado simples dizendo FUI. E foi sem olhar pra trás.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
domingo, 24 de março de 2013
Alice na Contramão
E Alice sentia que sua vida andava era na contramão.
Enquanto seus anos viravam e as rugas
se aproximavam, ela sentia-se uma menina, jovem e liberta. Enquanto a flacidez
ameaçava, havia liberdade nos movimentos. Quanto mais a rigidez muscular lhe
parecesse íntima, mais flexível sentia suas articulações do corpo.
Alice estava na contramão da vida. Agora não tinha medo de
quebrar coisas no meio, de pular de ponta, de fazer cambalhotas no amor, de dar
sentido às piruetas controversas, nem dos embaraços de ser livre. Não tinha medo. Tinha
é vontade.
E perambulava pelos trilhos da sua
biografia na ponta dos pés imitando uma bailarina de circo que quase-vai-mas-nunca-cai.
Andava na corda bamba da contradição, atravessava a rua sem dar as mãos,
cantava alto e desafinada debaixo d’água, vendia ideias aos transeuntes e
fotografava cenas tolas e corriqueiras como se fossem o mais belo dos arco-íris
com um grande tesouro no final.
Andava ao contrário do que o mundo dizia ser certo. Tudo nela brilhava, pulsava. Era ofegante, não se limitava ao máximo, queria é mais.
Não era soldada da vida, nem tinha sua alma subornada pela banalidade do sinal
verde aberto que dizia “passe”. Ela saltava. Alice estava na contramão de tudo.
Era
uma delícia isso de andar de costas pra frente. Alice adorava
a contramão. E lhe parecia o caminho
mais certo.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Alice e quando o tempo para em Alice
Aí
um dia ela olha no jornal as notícias de ontem. E das notícias de ontem tira
conclusões de amanhã que já é hoje. E embola. Bagunça. Escurece.
Escure
as vistas, enrola a língua, a garganta aperta, o corpo treme por fora, os olhos
umedecem e a voz some, o mundo para e parece que ela nunca mais vai ser feliz
de novo.
É
quando o tempo para em Alice.
E
depois que o tempo para nela, ela desperta e pensa que jogou a vida toda fora
enquanto o tempo andava lentamente, antes de parar. E este tempo que já passou
foi para o buraco da sua existência. Um buraco lixo de Alice. Anos de tempo no
seu buraco. E ainda insiste em pensar em tudo de ruim deste tempo, como se
assim, ele deixasse de existir por si só. E consequentemente o buraco
desenchesse de tanta ladainha.
É
quando o tempo para em Alice.
Aí
um dia ela sente-se abandonada, sozinha e largada pela vida. Sente-se
injustiçada e impunemente maltratada. Ninguém ligou para saber dela, das suas
alegrias e nem das suas dores. Ninguém ligou ou mandou uma mensagem. Aí neste dia, estropiada e amargurada, sente uma enorme vontade
de vomitar todo o gosto podre do lixo de tempo em quem lhe causa tanta dor. Mas o que queria mesmo é ter a bendita coragem de dizer, sem
pudor, “vem ficar comigo”.
É
quando o tempo para em Alice.
Blasfêmia
que este tempo de lixo era para Alice! Um grande amor que não termina com o
feliz para sempre. Ocupou seus dias enamorados, seus dias de pipoca e filme de
domingo e até mesmo seus dias chatos e desentendidos. Alice não queria, mas
sentia era raiva. Não era pessoa pequena que se encaixasse na velha fábula de
um dia da caça e outro do caçador. Todo dia era dia dela. Ela, que sempre se
virou, não era mulherzinha que corre e pede arrego quando transborda. Faz é
remenda e conserta. O outro que viesse em rastejos e socorros e pedisse aquele
beijo que faltou. E ela não daria.
Alice
não era gente que se estratifica em prazer e perdão. Alice não aceitava menções
de que habitava o lugar comum de quem sofre de dor de amor. Haveria de ser
diferente. Afinal, a escolha era dela. E dele. Eles é quem desistiram deles.
Ela disse não. Ele também disse não. Haveriam dito mesmo?
É
quando o tempo para em Alice.
Aí
um dia ela não ligou mais e ele não deu mais bom dia. Aí ela não sabia mais se
ele ia fazer trilha de moto e ele não sabia mais se ela tinha cortado os
cabelos. Não sabiam mais chorar juntos. Cansaram da rotina dos almoços em
família, de apoiar os sonhos sonhados e nem realizados. Aí um dia eles não
queriam mais ficar no para sempre.
O
danado do tempo passa com uma rapidez que nem jornal acompanha este furto de
sorrisos bestas de gente picada pela paixão. Aí passou a sexta, o sábado e o
domingo. Aí passou e foi passando e passando o tal do passado, acaba mal
resolvido e empoeirado como uma lembrança torta numa prateleira no fundo das
ideias. Fica lá, jogado às traças que tratam de comer tudo que sobrou.
É
quando para tudo. Para o tempo e a respiração de Alice. O passado dói, então,
como em todo mundo. E dói salgado pelo rosto e apertado no peito. Dor que não
tem apoio de aconchego ou abraço apertado com o cheiro daquilo. É quando o
tempo para em Alice. E é quando Alice finalmente chora de coração partido.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Alice e a saudade
Ela não sabia do que tinha saudades.
Se dele, se dela quando estava com ele, se dos dois ou se, ainda, da imagem bonita que formavam juntos.
Ela também sentia-se tão livre, que de tamanha liberdade, sentia-se perdida. Era muito espaço, era muito o que fazer. Era pouco direcionamento. Afinal de contas... O que se faz numa sexta-feira à noite? O que faria ela, Alice, na próxima sexta sem ele? O que ela costumava fazer antes do seu coração ser arrematado pelo amor dele? E agora, o que iria fazer?
Mas tinha saudades. Do tempo em que gostava dos afagos, da embriaguez dos cheiros misturados na hora de fazer amor, do olhar que lhe adentrava n'alma, do calor do seu corpo quando lhe falava besteiras ao pé do ouvido. Sentia saudades disso que, ao mesmo tempo em que era distante em unidade de momento, era como se tivesse recebido aquele último beijo ontem. Queria mais.
E sobre a liberdade, que atrevida ela! Ousava lhe dar bochechas rubras quando tinha coragem de viver qualquer coisa nova, mesmo que um simples olhar de banda. Liberdade que lhe enchia os pulmões de ar, que lhe dava sensação de vida nova, de sabores novos, de experimentação. Coisa que ela não tinha coragem de tocar, isso de experimentar.
Ainda apegada ao gosto, não se permitia nada de novo pra saborear por ter a certeza de que não ia gostar.
O que mais lhe tirava o sono é que ela não sabia do que tinha saudades. Se dele, se dela quando estava com ele, se dos dois ou se, ainda, da imagem bonita que formavam juntos, ou se da história que ela imaginava para eles. Como num conto de fadas.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Alice e Asas
Mas ele antes dizia: “vai, voa e pousa. Aqui”.
Hoje ele dizia: “você não voltou e fiquei te esperando” – mesmo sem saber que o voo dela mal tinha começado.
Paciência, foi o que ele não teve.
Ela, por sua vez, meio as flores, se deliciava e sentia outros, e especificamente outro cheiro inebriante, irresistível e embriagado de cravo, canela, barba, pele limpa, crua e nua.
Enquanto ela ia, ele se dificultava e agarrava pedaços de pano de alguém, de outrem que não era quem era de fato seria um possível incomodo pra ele, mas já era e uma provável verdade pra ela.
Ele suplicava pequenas coisas. Ela queria mais e sempre e a cada vez mais. Sempre proporcionalmente ao quanto ele se inclinava por sob a sombra dela.
Ela não era de sombra, muito menos de súplicas, quanto mais de rasantes arrebatamentos. Ela queria sempre mais e quanto mais ele lhe implorava, mais queria voar...
Ela abandonava, aos poucos, o ninho, o canto. Eram escalas diferentes, macias, às vezes revoltas dentro do peito, outras sem mais pormenores, tamanha insignificância. Mas eram sempre escalas, sempre estacionamentos, sempre verdadeiramente PAUSAS do voo de ida e volta, que não tinha voltado ainda.
E ela, displicente e indisciplinada com qualquer regra de 20 ou 30 cm, desde que régua, desde que obrigatoriedade, ia-se aos ventos, meio que perdida, meio que indo, mas nada de voltando. Ia, sem pretensão de saber para onde voltar, sem desistir, porém sem pensar, que dia ou outro teria que voltar. Ou chegar. Seria relevante. Teria que sacudir-se toda num outro pedaço, ou neste mesmo, mas teria de pousar. Qual canto fosse...
É... ela teria, um dia ou outro, que pousar. Talvez fosse hora, já.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Alice e o beijo dele
O roçar da barba dele...
O cheiro nu da pele dele encostando nos braços dela, no rosto, nas mãos, no corpo todo em toda parte que se tocava a pele dele e a dela...
Era muito. O ápice era aquilo, ali, naquela hora. Tudo parou.
Alice parou e o observou bem.
Lindo, com sorriso branco, cabelos grisalhos, altura dela ficar na ponta dos pés, abraço do jeito que a encolhia num colo. Ele estava nu, despido e verdadeiro na frente dela.
Aí Alice queria afundar-se dentro dele como se fosse possível tornar-se um. Queria engolir tudo, ele, o coração disparado dela e a vontade insana de estar ali para o resto da vida. Amando.
Ele teve que ir e ela teve que ir. Depois do encontro atropelado e furtivo, ela ouvia em pensamento: "...O beijo arrepiado no cangote e outro intenso na boca..."
Um querer mais sem fim. Era alguma coisa assim que Alice não conseguia entender, quanto mais explicar.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Alice e Fui
E era daquilo que quera viver, daquilo que atormenta o pensamento com detalhes passados, ora amassados e jogados num canto qualquer, ora sobreviventes das tempestades e tormentas que lhe assediaram assim como agora:
Desamassados e postos na tela do seu computador, aquela coisa antiga que não poderia nem mesm falar em voz alta.
Ah, sim, que era isso que lhe faltava, a ânsia de querer, o estado rubro da pele de poros abertos. E era de se admirar que não soubera antes que era isso de ficar louca, de arremessar esperanças ao vento, que tanto queria. Era para isso que vivia.
Esbanjada de visões coloridas sobre si mesma, Alice acariciava seu ego, sentindo-se o ser mais importante de todos. E, de fato, ela era mesmo. Despregada de qualquer cálice de protocolos sociais, livre de idéias fúteis e de pragmatismos, Alice era uma coisa só. Pulsava com força entre o desejo mais forte e a fantasia mais libertina de todas.
Ah, que delícia flutuar sobre a rotina cega que já sobrevivera. Alice era só razão para poder voar.
E decidiu: Em grande ato final, foi. Explorar uma imensidão daquilo que não conhecia. Abriu a caixa, a portinha da gaiola e foi. Para os desavisados, deixou um recado na porta: FUI!
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Alice e a ardência dos olhos
E em um dado momento, pensando de caixola nele, extraviou-se: ... "Meu coração tá mandando lágrimas ardidas para meus olhos chorarem. PUTZ!"...
Ele estava bem, ora bolas. Mas ela... Queria, sabe-se lá... Queria, talvez, dar um colo ao que lhe tanto deu carinho, ao que tanto lhe ensinou a fazer as contas, a entender a bíblia, a esperar, a crescer... E então, era ele que não se dava mais conta de quem era agora neste espaço de mundo, pois. Confusão embriagada de si mesmo. Dele e dela...
Enquanto isso era choro ardente.
Ele estava bem, ora bolas. Mas ela... Queria, sabe-se lá... Queria, talvez, dar um colo ao que lhe tanto deu carinho, ao que tanto lhe ensinou a fazer as contas, a entender a bíblia, a esperar, a crescer... E então, era ele que não se dava mais conta de quem era agora neste espaço de mundo, pois. Confusão embriagada de si mesmo. Dele e dela...
Enquanto isso era choro ardente.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Alice em trabalho de parto
Naquelas páginas corajosas dela:
Alguns veriam aquilo como um milagre desencaixotado da prateleira mais alta;
Grupos afirmariam aquilo ser, ora pois, pura sorte;
Alice, poré, via aquilo como construção, somente que haveria de ser, pois.
"Era uma sombra aflita pelo tempo que se movimentava numa ida e volta sem deixar os segundos passarem, sem deixá-la sair da sombriedade que era sacudir Alice por detrás.
Enquanto sentia nascer, num ventre, coisa nova e involuntária;
Descrentes diziam, "Óh, menina, isso é somente uma ilusão";
Mas era importância de pouco valor, pois, sentia por ali, mexer sem pedir licança em si.
"Era aquele punhado de palavras soltas e frases dignas de um vômito forçado que, ah... que deveria por-se para fora como um adiantamento precoce do parto que viria.
E Alice não parou de correr, como se não houvessem esperanças é para ficar ali, parada;
Alice ia de encontro ao que não era de nome pra se dar;
Era coisa grande que ela deveria buscar como exorcízio do que por tanto tempo gestou e admirou.
"Em estado de sombra penitente, densa e sabedora de muitas coisas, gozava de intermédio entre o desejo e o clímax, entre o que era pretensão para redenção.
Avivou em suspiro naquilo que tanto almejou sentir cheiro em pele de casca que sai como borboleta, nasceu em sorriso, em obra de criação;
Era seu primeiro ato. Nascia em um salto, sobressalto, e era agora.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Alice e o resto desimportante
Acabou de lavar a louça do almoço, limpou o chão sujo e ergueu os ombros para em seguida deixá-los cair. Era como se não adiantasse. Nada dava jeito naquilo interminável e intermitente de não parar. Queria tanto pintar as unhas e deitar-se na rede, seu lugar preferido da casa, e ler um pouco, até mesmo tomar um cochilo. Mas o chão estava limpo enquanto o banheiro deveria ter suas toalhas trocadas, o sofá merecia um conserto naquele rasgo que Penélope, inquieta a miar, fizera.
Deitou-se no chão limpo, de braços e pernas abertas e esticadas. Respirou profundamente. Fechou os olhos. Veio Penélope ronronando e lhe enroscou os cabelos. Começou a cantar bem baixinho para a gata: “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...” e assim, inerte, ficou por um bom tempo. Largou a vassoura de lado, a preocupação jogou por debaixo do tapete e depois resolveu pegar tudo que tinha debaixo dele e jogar fora no lixo. Enrolou o tapete vermelho persa que tanto achava aconchegante e cômodo e jogou-o para a dispensa.
Liberdade. Era isso que Alice tanto queria. Deu a dançar pela sala vazia depois de empurrar todos os móveis para os cantos. Ligou o som e cantou. Nem mesmo se importava mais com o sofá rasgado. Resolveu que penduraria ali a sua rede xadrez colorida e pronto. O resto ficaria mesmo para depois. Importante, agora, era a leveza do seu vestido branco imitando sua Sombra enquanto dançava descabeladamente. Isso sim, é que era liberdade.
Assinar:
Postagens (Atom)
Janela da alma... E sombra.
