Tomar banho e não sentir-se completamente limpa enquanto seu quarto fedia a desinfetante já não lhe era mais novidade. Não era algo que estranhava.
Alice pensava, agora, é em outra coisa. Ela que não era mais menina e, por fim, crescia, matutava sobre como era necessário sair de casa para descansar. Ficar por perto era angustiante e perturbador. Como, a cada dia, sentia-se mais estranha naquele ninho. E como aprendera a morar num lugar que lhe limitava em tudo, desde em sua liberdade até na sua bagunça.
Alice nunca era a primeira a ver sua correspondência, nunca achava suas gavetas como tinha deixado, nunca era dona de suas roupas ou sapatos. E seus cabides eram contados, assim como seus passos, sempre aquém de suas necessidades.
Escondia o que queria só pra ela. Jogava fora o que não poderia esconder. Aquilo não era o que lhe diziam chamar-se Home Swet Home. Ela sentia como se fosse prisioneira e foragida ali dentro e das pessoas dali de dentro.
Agora ela pensava era se existisse algum motivo religioso, energético, kármico, ateu ou outro qualquer para aquilo tudo, que haveria de ser grande. Porque começava a compreender que SOBREVIVER assim, a todo tipo de barreira imaginária, à liberdade falsária, ao grande irmão e suas teletelas, ao controle rígido de seus sentimentos e sua constante garganta entalada com nós de desabafo que nunca vinha à tona, era algo que ia além de sua compreensão.
Era como nas histórias infantis com príncipes encantados. Presa e criminosa, desgostosa, cara-a-cara com a perfeição, sempre inútil, porém bela, agardava o final feliz, após vinte e tantos anos escondida de si mesma.
Só não entendia se isso que lhe era claro agora era novidade ou se somente mais uma manifestação (agora, porém, mais objetiva e óbvia) de que aquela convivência "familiar" uma hora ou outra, e em breve, tinha que deixar de existir.
Isso fazia Alice chorar no escuro sozinha. E seu maior medo era estar moldada e acabar por fazer a mesma coisa.
Se já não o estivesse fazendo...

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