E se essa solidão lhe pertence e somente lhe pertence como compartilhar?
Se essa solidão não tem remédio como curar?
Se essa dor é de dentro do coração como tratar?
Foi quando sentou-se novamente de frente ao espelho. Não escolheu branco. Estava de preto. Virou-se de costas. Não via Santos e não escutava música. Apenas sua respiração pressurosa e seu coração latejando no peito e nas costas. Isso era sinal de vida e sinal de sofreguidão.
E se lhe arrancasse por dentro tudo aquilo que lhe fazia penar?
Seria possível tirar dela o que era dela e somente dela?
Como compartilhar?
Como se não vomitar dor?
E virou-se novamente de frente. Encarou a imagem que nem bem parecia conhecida. Aquela mulher de preto, com olheiras, lágrimas que não desciam mais, penosa, pesada, arqueada e unhas mal feitas. Cabelos despenteados, caídos sobre as bochechas rosadas por natureza e olhos caídos por tristeza.
E como seria ser a outra, a do espelho?
Seria exatamente como lhe parecia ser?
Seria passiva e observadora ou teria coragem de quebrar aquela membrana?
Sentiria dor?
Levantou-se. Ensaiou cara de gente normal. De gente que faz as unhas, que penteia os cabelos e que não conversa em pensamento com o reflexo de uma tal Alice.
Deu um soco no espelho rachado. Quebrou.
Virou-se e foi. Cambaleando dar de cara com a vida que não tinha jeito de deixar de existir nem por um segundo. A vida não lhe dava trégua. Não parava nunca e o tempo não descansava. Mesmo que desejasse fortemente.

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