“Nós, os diferentes”, Ela acabou de ler em Lya Luft. Só o título. Só isso.
E Ela, que já estava com vontade de ficar distraída, ficou. Parou de olhar para os lados, embolou o cabelo num rabo-de-cavalo e sacou da big bolsa um caderno. Um caderno muito especial, muito mesmo: capa dura, azul, com páginas pautadas. Limpo. – Ganhou de presente de um amigo com as inscrições: “Este é um livro que você deveria ler. Quando terminar me empreste”.
E foi escrevendo suas caraminholas com a caneta emprestada do garçom.
Estava só. E palavreava sobre isso de “estar só”. Sobre isso de se achar. Sem espelho, sem transformação, sem razão e sem juízo. De cara limpa. E conversou com o diário azul. Sobre isso de “ficar só”. E sobre isso de “ficar distraída”.
Estava tão distraída que sua mesinha redonda era um acúmulo de chopes que nem sabia se tinha aceitado. Suas mãos travavam, seus calos doíam. Mas Ela não parava. Era consumida pelo “só” e pelo “distraída”.
Lembrava-se do que tinha escutado: “Para se apaixonar basta ficar distraída!”. Ah, e como era bom ficar distraída... Fora da ordem, simples, num lugar, longe. Sem barulho ou réguas. Só ela...
E pensou, sem palavras, como eram parecidos o “ficar só” e o “ficar distraída”. Já não fazia diferença, então. Não fazia confusão, memória ou razão. Era só aquilo mesmo. E era de um bem estar!
Seu ego lhe afagava sem elogios. Ficara ali, só. Sem precisão de ninguém. Alguém.
Foi ali que se apaixonou. Então Alice descobriu que se amava.
sábado, 23 de maio de 2009
Alice distraída
às
06:05
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Janela da alma... E sombra.

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