Designer by Luiz Cotta

Alice e sua Sombra

Alice não é Ágata.
Alice não é Renata, Débora, Aline, Ana e muito menos Carolina.
Alice não é bailarina, professora de forró, santa ou indulgente.
Alice é só Alice mesmo. E mais nada.
Por enquanto...

sábado, 28 de março de 2009

Alice na Avenida Q

Ela sentou-se confortavelmente na poltrona H-25. Ajeitou-se entre os braços ao lado, a bolsa pequena, o espaço para cruzar as pernas, o desligar o celular e a programação colorida do musical.

À sua frente um nada escuro. Ao lado pessoas conversando sobre o que esperavam daquele espetáculo e sobre o tempo nublado que se fizera naquele dia no Rio de Janeiro. Atrás só o detalhe do vestido entrelaçado que lhe impedia o completo relaxamento no encaixe daquele lugar.

O primeiro chamado trouxe um punhado de cabecinhas loiras, brancas, morenas, peladas... A conversa aumenta. Ouviu sobre os cachorros da vizinha, sobre o que Fulano fazia li e outras coisas.

O segundo chamado imediatamente proferiu o silêncio e a ansiedade. Alice ainda se incomodava com as costas do vestido.

Quando o monitor em LCD mal iluminou toda a ornamentação do palco com informações sobre a peça, patrocínios e outras coisas, Alice desencostou do seu assento H-25 e, sem se preocupar com quem a tinha à vista, entrelaçou os braços por trás e desfez toda a parafernália de nós e tranças nas costas. Amarrou com um único nó o gigantesco pedaço de pano do vestido e o jogou de lado junto com os cabelos. Pronto. Satisfeita.

E começou o show!

A música... Ah, a música lhe dava vontade de cantar! Tinha também vontade de dançar!

Quando viu Princeton, Alice ficou impressionada. Ele era tão franzino, tão... tão pequeno. E um vozeirão que não condizia a sua pequenez. E botou-se a observar minuciosamente cada um dos atores: gente e bonecos. E os misturados. Ainda achava que tinha um playback. Porque não haveria de ser gente cantando, interpretando, dançando, sorrindo, atuando, mexendo com os muppets e ainda por cima... sorrindo. Mas não tinha. E isso era perceptível. As gargalhadas eram muito verdadeiras. Os gritos eram muito gritados e as falas muito faladas mesmo.

Já não se importava mais se a sua risada alcançava pessoas de outras letras, que não a H. Até porque sempre que aparecia Rod em cena ela ficava embasbacada sem entender onde André Dias tinha metido Princeton.

O musical maravilhou seus olhos e coração que há tempos precisavam de um afago, de energia boa, de rir de si mesma. E fez muito isso durante aquelas duas horas.

Se enxergou em Kate, a monstra peluda com seu sonho de uma escola para monstrinhos. Se viu em Brian que não perdia o remelexo e ainda acreditava que faria um grande sucesso com suas piadas ainda sem fim. E Nick? Era amigo, era gente que morava na rua... Era tudo sem medo. E ao mesmo tempo era pele do Trekkie, Monstro tarado. Tudo isso pelas mãos de Fred Silveira.

Encantou-se com a Japa Neusa. Ela realmente representava um gueto. E falava alto. Aliás, gritava, não falava. Todas as vezes que ela estava em cena era uma boca aberta de Alice sem piscar os olhos.

Naquela avenida Q, naquela Vila Sésamo, na casa dos Muppets Babys ainda tinha o ator infantil crescido, Gary Coleman, bem como alguns que conhecera pelas reprises na TV aberta, tinha também Lucy De Vassa. Um espetáculo como este precisava de uma arrasadora, promíscua e constantemente culpada pelos desentendimentos daquela bodega. Porque a culpa é para amadores!

Mas Alice queria mesmo é ser uma ursinha do mal! Que delícia aqueles ursinhos! Se eles se consultassem com a terapeuta sem pacientes seria outro espetáculo. À parte!

Tudo politicamente correto, considerando que o incorreto já não fazia mais parte desde o começo de tudo. Sonhos, dinheiro, emprego, sair e entrar do armário, surpresas, racismo, fracasso, sucesso, bagaços da vida humana (e de bonecos também) eram tratados com tamanha irreverência que era ser normal. Portanto correto. Até porque quem nunca passou por alguma destas situações?

Quem nunca debochou de um amigo na merda?
Quem nunca tropeçou na própria merda?

Alice queria ser atriz, ter uma voz esplendorosa e atuar na Avenida Q. Decidiu isso quando as luzes acenderam seus olhos encantados com o humor sátiro e gostoso que de que se preencheu durante aquele tempo. Foi mesmo complicado sair da H-25 sem desejar voltar no dia seguinte.

Queria bater mais muitas milhões de palmas, mas se lembrou do vestido que tinha que arrumar antes que lhe caísse tudo abaixo. Arrumava o vestido, descruzava as pernas, prendia o cabelo, procurava a bolsa, o cronograma da peça e ainda encarava o rosto de cada ator como se por ali pudesse transmitir tudo de bom que estava sentindo.

Foi embora do teatro, comprou um temaqui, pegou um taxi e foi para o aeroporto. Ainda pensava como descreveria aquilo. Não tinha como. Teria de voltar e levar as pessoas para que vissem como um ator-boneco-gente podia ser tão um só e ao mesmo tempo, tantos. Eram muitos...
Adaptação do texto: Cláudio Botelho e Charles Möeller
Elenco: Sabrina Korgut (Katie Monstro, Lucy), André Dias (Princeton e Rod), Fred Silveira (Trekkie Monstro e Nicky), Renata Ricci (Ursinha do mal, Sra. Coisa Ruim), Renato Rabelo (Brian), Cláudia Netto (Neusa), Gustavo Klein (Ursinho do mal), Maurício Xavier (Gary Colleman)

Alice e seu tempo

E os tempos de outrora serão sempre tempos de outrora.
O males parecem maiores do que na época da vida desprendida de tempo e valores, quaisquer valores, que a tão pouco tempo lhe tampava os olhos e lhe trazia uma sensação irradiante de bem estar.
E quando se senta ali de novo, no mesmo banquinho alto do outro sempre, não deixa de pensar como o ontem era diferente e bom. E era mesmo muito bom.
E a música falava de passado nostálgico e chorava "a long long time ago" e "let me go now" mesmo não querendo ir por não saber onde chegar.
E o tempo, ora, o tempo era o mesmo, as pessoas eram as mesmas, as coisas, os fatos. Eram os mesmos. O que via e sentia que lhe era diferente.
Dias, meses, anos, eternidades da outrora de ontem, de quando se acreditava livre e sem dor eram distantes, apesar de serem apenas ontem.
E hoje, por algum motivo do sempre de agora, era tudo mais duro.
E não daria fim. Seria sempre a evolução do ontem e nada de amanhã.
Sabia que seria sempre assim. Porque o tempo...
o tempo nunca se daria trégua.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Alice e seus Girassóis

E Ela não fazia mais nada além de desesnhar todas as flores que conhecia naquele papel quadriculado que não era seu, numa casa que não era sua e num espaço que lhe era ao mesmo tempo enorme e tão imensamente pequeno para Ela.
E não sabia nem mesmo o porquê!

terça-feira, 17 de março de 2009

Alice e o que disseram por aí...

"Alice é minha amiga imaginária"

Alice e a bola de cristal quebrada

“Niver da Fulana, carnaval e hoje... Pare de fazer a sua parte. Ela não te cabe mais.”

Não era a primeira vez que lhe dizia este tipo de coisa, que terminava alguma coisa que lhe tirava algum espaço como se a punisse por não entender o que nunca tinha dito antes.

E cansada de mendigar por amor atenção e “bastava tu, bastava tu adular tiquinho meu”, não se conteve em revolta. Não fazia parte nenhuma naquele esquema, naquele sistema que outra pessoa tinha criado e encaixado peças tortas. Não fazia nada que não fosse por puro amor. E se este não cabe, sorry, era o que tinha a oferecer. E que p@#$@% isso de dizer que não. Que não nada. Isso é coisa de um rapaz que sem ter proteção foi se esconder atrás da cara de vilão, então...

Vontade de mandar catar coquinho, mas que ligação doida é essa, tarde da noite, sabe-se lá onde estava e quantas tinha bebido, dizendo que loucura essa e que era melhor nem chamar uma vez que não queria de fato que estivesse por ali e... Foi o que pode entender. Não valia à pena mais escutar a ladainha. Desligou.

“Demente deixei de ser faz tempo e pode se achar menina que os anjos lhe tragam bons sonhos.”

As ofensas mesmo as mal-ditas lhe cansavam cada vez mais. Não lhe dera o mapa daquele tesouro, da mina escondida ou da bola de cristal. E nos últimos tempos vinha lhe amaldiçoando com coisas fúnebres como “o que ele lhe fez eu não aceitaria” mesmo que não lhe dessem ouvidos. Continuava num efeito de transferência querendo saber se não tinha algo a mais que não tinha dito ou algo muito mais sério do que seus problemas estomacais.

Sua estranheza afetava não somente Alice, mas Monalizas também. “Deixa”, diziam. Deixaria, então.

O problema é que deixar era difícil porque significava deixar um amor que lhe fazia muito bem, mas que ultimamente andava lhe trazendo demasiadas preocupações e, por vezes, tirava o chão onde pisava. Mas era um grande amor. Um amor que pedia libertação, fazia birra ou simplesmente queria um tiquinho de adulação. Mas êta amor difícil de decifrar, cheio de entrelinhas e adivinhações. Mas deixaria. Com grande pesar. Por nunca mais ter encontrado aquele amor leve e refrescante que antes só lhe fazia bem, mesmo sendo mal.

Deixa saudades.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Alice e o Espelho Quebrado

E se essa solidão lhe pertence e somente lhe pertence como compartilhar?
Se essa solidão não tem remédio como curar?
Se essa dor é de dentro do coração como tratar?


Foi quando sentou-se novamente de frente ao espelho. Não escolheu branco. Estava de preto. Virou-se de costas. Não via Santos e não escutava música. Apenas sua respiração pressurosa e seu coração latejando no peito e nas costas. Isso era sinal de vida e sinal de sofreguidão.

E se lhe arrancasse por dentro tudo aquilo que lhe fazia penar?
Seria possível tirar dela o que era dela e somente dela?
Como compartilhar?
Como se não vomitar dor?


E virou-se novamente de frente. Encarou a imagem que nem bem parecia conhecida. Aquela mulher de preto, com olheiras, lágrimas que não desciam mais, penosa, pesada, arqueada e unhas mal feitas. Cabelos despenteados, caídos sobre as bochechas rosadas por natureza e olhos caídos por tristeza.

E como seria ser a outra, a do espelho?
Seria exatamente como lhe parecia ser?
Seria passiva e observadora ou teria coragem de quebrar aquela membrana?
Sentiria dor?

Levantou-se. Ensaiou cara de gente normal. De gente que faz as unhas, que penteia os cabelos e que não conversa em pensamento com o reflexo de uma tal Alice.

Deu um soco no espelho rachado. Quebrou.

Virou-se e foi. Cambaleando dar de cara com a vida que não tinha jeito de deixar de existir nem por um segundo. A vida não lhe dava trégua. Não parava nunca e o tempo não descansava. Mesmo que desejasse fortemente.

domingo, 15 de março de 2009

Alice e o Espelho


Estava sentada de branco, em frente ao espelho. Devido a negritude dos dias decidiu usar branco, para aliviar ao menos o reflexo da imagem.
Ouvia uma música, sabe-se lá de que banho e Iemanjá se falava. Sua Fé estava bem abalada. Tinha os olhos caídos na direção de Nossa Senhora de Aparecida. Na tempestade em que vivia, molhada, com frio, perdida e sem saber o caminho de volta, com os dedos enrugados e uma terrível dor que vinha do coração, se apegava a todos os Santos. Qualquer um que indicasse o próximo passo serviria.
Mas a resposta por vezes demorava e a dor... E a dor não saía de cena.
E, assim, se analisava, analisava aquele reflexo no espelho, procurando um restinho de força e pedia socorro desesperadamente. A chuva que lhe caía por dentro da cabeça começava a escorrer pelos face. Lágrimas pretas da escuridão.
Ainda assim conseguia manter a meiguice. E o tamanho. Tamanho que não era de sua vontade. Queria mesmo é ser pequenininha.
Sua dor era da solidão, confusão. E acreditava, apesar de relutar, que sua única saída era a RENÚNCIA.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Alice sob encomenda

ali
só
ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece

Leminski

sábado, 7 de março de 2009

Alice e seu Anjo

No final das contas tinha sido bom. Bom. Mas esquisito.
Porque ele estava com cabelo esquisito e ela muito magra. Ou porque ele só bebia água e ela tomava cerveja. Talvez porque era tarde e o cansaço batia à porta. Talvez o lugar. Talvez ela. Talvez ele. Talvez porque eles não tivessem mais o encaixe perfeito um do outro.
E antes mesmo do final daquela noite eles se despediram com um abraço, este sim, o de sempre, um cheiro bom e um sorriso cúmplice de fim ou novo começo...

terça-feira, 3 de março de 2009

Alice e dez anos depois

Oi
Oi
Não se lembra de mim, não?
Hã...
Tudo bem. Eu me lembro. Frequentávamos o mesmo clube desde criança...
É?
- Normal ele não se lembrar de Alice. Afinal, eles eram (especialmente ela) muito novos naquela época.
Eu sou Alice e você é o Fulano.
Desculpa, eu não...
Tudo bem. Depois a gente se vê.
- Ele continuava o mesmo. O jeito charmoso, o corte de cabelo, os olhos cerrados... Ela, Alice, não sabe bem o quanto tinha mudado para ele, Fulano. Mas uma coisa lhe era certa: crescera.
Ah, lembrei! Você era aquela meninha que isso e aquilo, não é?
Sim. Sou eu.
Como você mudou.
Você não.
Vamos dançar?
OK.
- Alice disse que, naquela época, ela menina e ele adolescente, era completamente apaixonada por ele e que tinha sentido muita raiva porque ele tinha beijado sua amiga, tão menina quanto.
E você só me conta isso agora? Se eu soubesse...
- Alice sentiu vontade de fazê-lo sentir. Aquele rapaz representante de sua primeira desilusão amorosa... Há. Coisa tipo vingança. Daquelas nada sórdidas, mas que TODA MULHER sempre quis fazer
Dança outra, Alice?
Pode ser.
- Na terceira dança ele já enroscava palavras óbvias (quanta falta de originalidade) e repetia 'se eu soubesse...'. Xote. Corpos suados. E Alice jogou a isca.


Se você soubesse... O quê, se soubesse.
- Não se conteve com o gostinho doce do peixe mordiscando a minhoca falsa. E quando Fulano virou o rosto e quase chegou aos lábios sem batom de Alice, ela usou sua mais malígina arma.
Bom te ver querido! Você continua o mesmo! Mora no mesmo lugar, faz as mesmas coisas... Mas agora deixe-me ir porque meu namorado já tá de olho. Beijo grande.
- Lhe deu um beijo gelado na testa (na testa!) e foi ao encontro de seus amigos com um sorriso largo, porém malicioso. Abraçou seu amigo e suspirou.
Acabei de me encontrar com o meu primeiro amor.
E aí?
Dei um fora nele...
- Acendeu um cigarro e não pode se conter. Aquilo tinha sido melhor impossível.

Janela da alma... E sombra.

Janela da alma... E sombra.

Quem?

O que disse Richard Pekny