À sua frente um nada escuro. Ao lado pessoas conversando sobre o que esperavam daquele espetáculo e sobre o tempo nublado que se fizera naquele dia no Rio de Janeiro. Atrás só o detalhe do vestido entrelaçado que lhe impedia o completo relaxamento no encaixe daquele lugar.
O primeiro chamado trouxe um punhado de cabecinhas loiras, brancas, morenas, peladas... A conversa aumenta. Ouviu sobre os cachorros da vizinha, sobre o que Fulano fazia li e outras coisas.
O segundo chamado imediatamente proferiu o silêncio e a ansiedade. Alice ainda se incomodava com as costas do vestido.
Quando o monitor em LCD mal iluminou toda a ornamentação do palco com informações sobre a peça, patrocínios e outras coisas, Alice desencostou do seu assento H-25 e, sem se preocupar com quem a tinha à vista, entrelaçou os braços por trás e desfez toda a parafernália de nós e tranças nas costas. Amarrou com um único nó o gigantesco pedaço de pano do vestido e o jogou de lado junto com os cabelos. Pronto. Satisfeita.
E começou o show!
A música... Ah, a música lhe dava vontade de cantar! Tinha também vontade de dançar!
Quando viu Princeton, Alice ficou impressionada. Ele era tão franzino, tão... tão pequeno. E um vozeirão que não condizia a sua pequenez. E botou-se a observar minuciosamente cada um dos atores: gente e bonecos. E os misturados. Ainda achava que tinha um playback. Porque não haveria de ser gente cantando, interpretando, dançando, sorrindo, atuando, mexendo com os muppets e ainda por cima... sorrindo. Mas não tinha. E isso era perceptível. As gargalhadas eram muito verdadeiras. Os gritos eram muito gritados e as falas muito faladas mesmo.
Já não se importava mais se a sua risada alcançava pessoas de outras letras, que não a H. Até porque sempre que aparecia Rod em cena ela ficava embasbacada sem entender onde André Dias tinha metido Princeton.
O musical maravilhou seus olhos e coração que há tempos precisavam de um afago, de energia boa, de rir de si mesma. E fez muito isso durante aquelas duas horas.
Se enxergou em Kate, a monstra peluda com seu sonho de uma escola para monstrinhos. Se viu em Brian que não perdia o remelexo e ainda acreditava que faria um grande sucesso com suas piadas ainda sem fim. E Nick? Era amigo, era gente que morava na rua... Era tudo sem medo. E ao mesmo tempo era pele do Trekkie, Monstro tarado. Tudo isso pelas mãos de Fred Silveira.
Encantou-se com a Japa Neusa. Ela realmente representava um gueto. E falava alto. Aliás, gritava, não falava. Todas as vezes que ela estava em cena era uma boca aberta de Alice sem piscar os olhos.
Naquela avenida Q, naquela Vila Sésamo, na casa dos Muppets Babys ainda tinha o ator infantil crescido, Gary Coleman, bem como alguns que conhecera pelas reprises na TV aberta, tinha também Lucy De Vassa. Um espetáculo como este precisava de uma arrasadora, promíscua e constantemente culpada pelos desentendimentos daquela bodega. Porque a culpa é para amadores!
Mas Alice queria mesmo é ser uma ursinha do mal! Que delícia aqueles ursinhos! Se eles se consultassem com a terapeuta sem pacientes seria outro espetáculo. À parte!
Tudo politicamente correto, considerando que o incorreto já não fazia mais parte desde o começo de tudo. Sonhos, dinheiro, emprego, sair e entrar do armário, surpresas, racismo, fracasso, sucesso, bagaços da vida humana (e de bonecos também) eram tratados com tamanha irreverência que era ser normal. Portanto correto. Até porque quem nunca passou por alguma destas situações?
Alice queria ser atriz, ter uma voz esplendorosa e atuar na Avenida Q. Decidiu isso quando as luzes acenderam seus olhos encantados com o humor sátiro e gostoso que de que se preencheu durante aquele tempo. Foi mesmo complicado sair da H-25 sem desejar voltar no dia seguinte.
Queria bater mais muitas milhões de palmas, mas se lembrou do vestido que tinha que arrumar antes que lhe caísse tudo abaixo. Arrumava o vestido, descruzava as pernas, prendia o cabelo, procurava a bolsa, o cronograma da peça e ainda encarava o rosto de cada ator como se por ali pudesse transmitir tudo de bom que estava sentindo.
Foi embora do teatro, comprou um temaqui, pegou um taxi e foi para o aeroporto. Ainda pensava como descreveria aquilo. Não tinha como. Teria de voltar e levar as pessoas para que vissem como um ator-boneco-gente podia ser tão um só e ao mesmo tempo, tantos. Eram muitos...
Adaptação do texto: Cláudio Botelho e Charles MöellerElenco: Sabrina Korgut (Katie Monstro, Lucy), André Dias (Princeton e Rod), Fred Silveira (Trekkie Monstro e Nicky), Renata Ricci (Ursinha do mal, Sra. Coisa Ruim), Renato Rabelo (Brian), Cláudia Netto (Neusa), Gustavo Klein (Ursinho do mal), Maurício Xavier (Gary Colleman)
